O arauto popular

Capa CD Renato Teixeira Orquestra do Estado de Mato Grosso O arauto popularA diversidade de gêneros musicais existentes no Brasil é quem faz da nossa música a melhor do mundo. Dito isto, por favor, venham comigo, leitorores: o samba carioca nasceu na Bahia; bem como o frevo baiano nasceu em Pernambuco; os temas musicais existentes nas áreas interioranas, embora sigam florescendo, são pouco conhecidos por grande parte de nossa gente (eu inclusive); a riqueza do cancioneiro das áreas ditas caipiras ou sertanejas se manifesta através de uma música tão popular que identifica e representa todo o povo do interior brasileiro.

Digo isso após prazerosas audições de um CD que traduz com fineza o jeito rural de compor, tocar e cantar: Terra de Sonhos – Renato Teixeira & Orquestra do Estado de Mato Grosso (Kuarup).

O álbum tem direção artística e regência de Leandro Carvalho, ele que junto com Renato Teixeira escolheu o repertório e os seis arranjadores. A orquestra de cordas (afinação máxima!), criada em 2005, tem 21 músicos e as participações especiais de Chico Teixeira e Natan Marques (violões).

Solos e muita dinâmica vêm e vão… e Renato Teixeira? – o que é isso, meu Deus?! Graves redondos, voz macia, quase tímida, ele interpreta como um arauto, sintetizando e amalgamando as virtudes da música regional. Sensível, suas canções, falando de dores, amores, desejos, sonhos, retratam o que o povo sente.

E o sonhar começa com “Terra de Sonhos” (Renato Teixeira e Almir Sater). O arranjo de Ruriá Duprat conduz a melodia calorosa que envolve os versos de Sater, cantados por Renato.

“Tocando em Frente” (RT e Almir Sater) tem arranjo de André Mehmari, que, com pegadas melódicas e rítmicas, eleva Renato. A intro arritmo tem feitiço, tem força espiritual – é a beleza oferecendo o seu encanto. O pizzicato das cordas, junto com o canto, arrasa. E Renato Teixeira entoando: “Ando devagar/ Porque já tive pressa (…).” Emoção!

“Amora” (RT) tem arranjo de Vittor Santos. A intro é delicada, assim como preciosa é a letra. A voz vem com o violão. A orquestra se junta a eles. Um intermezzo suave, e a canção segue romântica…

“Chalana” (Arlindo Pinto e Mário Zan) tem arranjo de Paulo Aragão. Como numa prece, Renato canta “O chalana (…) navega no remanso do Rio Paraguai (…)”. Uma nota aguda da melodia sai límpida da garganta do cantador. Meu Deus!

“Passatempo” (Renato Teixeira) tem arranjo de Ítalo Peron. Na intro as cordas e a viola ponteiam. E vão.

“Meu Veneno” (Renato Teixeira) tem arranjo “invocado” de Tiago Costa. Desde a intro, o violino desgarra pra logo depois voltar a “garrar” na melodia. Num passeio dos versos pelos lugares por onde passou o cantador, ele mais a orquestra se divertem enquanto criam formosuras.

Ao longo do disco, percebe-se o quanto cada arranjador botou fé na orquestra e no maestro, dedicando a eles o melhor de sua inspiração.

E o arauto segue cantando os versos nascidos pra lá dos cafundós do mundo. E assim ele tatua a fogo de fogueira e à luz da noite a cara do Brasil profundo.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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