O Bloco das Almôndegas

bloco kledir O Bloco das AlmôndegasSou o tipo de cara que aproveita o carnaval pra descansar, mas nem sempre foi assim. Já dei os meus pulinhos. Venho da tradição do carnaval de Pelotas, durante muito tempo considerado uma das festas mais animadas do país.

Nos anos 70, eu fazia parte do Almôndegas, assim mesmo no masculino, uma banda que fez história no sul do país. Paralelamente, em Pelotas, tínhamos o Bloco das Almôndegas, agora sim no feminino, um grupo de amigos que saía fantasiado de mulher. Não sei de onde vem essa mania – que é igual em qualquer lugar do mundo – de homem se vestir de mulher no carnaval. Freud talvez explique. Vai ver, cada um de nós tem um Clóvis Bornay por dentro e não sabe.

O bloco começou como um agrupamento desordenado de gente que não tinha o que fazer e evoluiu a ponto de se tornar um grande acontecimento. Nosso presidente, um sujeito desmiolado e com o hábito da bebida, era jornalista e transformou aquela brincadeira num sucesso. Escreveu matérias importantes sobre “os entusiasmados ensaios do bloco”, o que de certa forma era verdade. Só não deixava transparecer a dimensão da coisa: os tais ensaios eram realizados numa mesa do bar Cruz de Malta.

Com toda essa divulgação, conseguimos apoio de empresas e até uma verba da prefeitura. Aí montamos um carro alegórico de fazer inveja às escolas de samba e foi preciso estabelecer um critério de seleção para os músicos da bateria: quem chegasse com instrumento, tocava. Em relação às fantasias, a criação era livre. O único detalhe obrigatório era o uso do batom, mesmo que a “moça” usasse barba ou bigode.

No dia do desfile, aquele divertido e alcoolizado exército de Brancaleone, entrou na avenida já meio se desmanchando. No alto do carro alegórico, radiantes, vinham a Rainha e duas Princesas. Uma delas, essa que vos escreve, ou melhor, esse. Atravessei a avenida acenando para o público e jogando tênis com as lâmpadas da decoração, usando o violão como raquete. Alguns me acusaram de ser o responsável pela desclassificação do bloco, mas considero a chuva de garrafas de cerveja contra a mesa dos jurados, um episódio muito mais significativo.

Quando terminamos o desfile, nosso presidente, eufórico com a apresentação, resolveu que deveríamos voltar à avenida. Na contra-mão. E assim foi, retornamos sambando, enlouquecidos, batendo de frente com A Girafa da Cerquinha e o Bloco do Padre Ozy, que por alguma razão vinham na direção contrária.

A pororoca carnavalesca que se formou está registrada até hoje na memória dos foliões. E também no livro de ocorrências da Delegacia de Polícia.

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