O gosto doce

creme O gosto doceFui alfabetizado por uma velhinha que, diziam as más línguas, teria sido prostituta na juventude.

Baixinha, magra – daquelas bem ossudas – e de bigode, não consigo imaginar que tenha sido profissional do sexo.

Não teria sido das moças mais atraentes, a nossa dona Nilda. Para piorar, tinha as pernas muito finas e peludas.

Como sei disto? Ora, ela me colocava para rezar, ajoelhado, diante da imagem de uma santa cujo nome me foge à lembrança. E eu via seus cambitos, quando ela se aproximava para anunciar o fim do castigo.

Não creio que seu método didático tenha funcionado comigo. Até hoje tenho dificuldade de me lembrar quanto é sete vezes seis, o calcanhar de Aquiles nas arguições de tabuada.

Por mérito dela e medo meu (de rezar ajoelhado de novo e de novo e de novo), eu entrei no grupo escolar sabendo ler e escrever.

A primeira professora “oficial” chamava-se Dionete e me dei bem com ela. Terminei o ano com honras e só não gostava da hora da merenda, no recreio. A fila quilométrica de caneca plástica na mão para encarar uma gororoba que chamavam de “triguilho”, não deixava tempo para brincar com a meninada.

Nas festas do Manoel Byrro eu fazia dupla com um menino a quem chamávamos de Maurício Zói de Gato, porque ele tinha os olhos azuis.

Nós cantávamos Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones, do grupo Os Incríveis.

Começava ali uma carreira promissora na música.

Nosso palco era uma mesa de fundo bambo, suspeitíssimo e, na hora do refrão, imitávamos uma metralhadora com as mãos, apontávamos um para o outro e gritávamos ra-ta-ta-ta-ta-tá.

Ao final da performance, caíamos para trás, como que atingidos por balas vietnamitas. Choviam aplausos, mas como nosso repertório se resumia a uma única música, a platéia enjoou e terminou ali aquela promissora carreira musical.

Adultos, Maurício entraria para a polícia militar e eu viria lavar pratos nos Estados Unidos.

Cantar, para ambos, nem no banheiro.

Quando completei oito anos minha família foi de mala e cuia para Barra do Cuieté, um lugarejo quase na divisa com o Espírito Santo e para onde meu pai havia sido transferido.

Vivemos lá durante um ano e meio e foi um perìodo muito feliz de minha vida. Nadava na foz do Rio Caratinga com o Rio Doce, tomava banho de cachoeira, pescava e caçava passarinho.

E foi lá, no Grupo Escolar Maria Ortiz, que iniciei a ‘trajetória nas letras’.

Todos os anos acontecia uma concorrida gincana em que os alunos tinham que executar tarefas que dariam os pontos para a sua equipe. Os vencedores iriam em cima de um caminhão de leite a Conselheiro Pena  tomar sorvete e passear na pracinha.

Na tarefa de redação, cujo tema era “Meu brinquedo favorito”, conquistei o ponto para a equipe azul ao enumerar os gols que faria (e não fiz) com a bola de futebol que minha tia Terezinha ainda haveria de me dar.

E aquele sorvete sentado num banquinha da Praça da Matriz em Conselheiro foi meu Jabuti, meu Nobel, meu Camões.

Meu prêmio era de creme.

E até hoje eu consigo sentir o seu gosto doce.

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