O guarda, a violinista e o juiz

violinista roberto O guarda, a violinista e o juizQuando cheguei aos Estados Unidos, em 1984, deixei para trás uma dívida que não tinha condições de pagar. Meu pai penhorou a casa em que morávamos, pegamos algum dinheiro emprestado com familiares e eu embarquei com 700 dólares no bolso. O plano era descer no JFk, passar uma noite em um hotel e seguir na manhã seguinte para East Orange, onde dez dos amigos de infância dividiam um apartamento de três quartos.

A reserva foi feita em um hotel que não existe mais. O Taft fecharia suas portas algum tempo depois da minha estadia. Antes de chegar ao Taft, passei por momentos de grande tormento.

Foi um vôo tenso do Rio a Nova York, em uma aeronave da falecida Panam. Naquele tempo as pessoas podiam fumar a bordo e a minha cadeira ficava em uma espécie de cortina de fumaça, bem no final do avião. Não consegui dormir um único minuto da viagem.

Chegamos por volta de seis da manhã e fui parar na infame ‘salinha’, que é para onde os agentes de imigração encaminham as pessoas de quem desconfiam que estejam entrando no país para viver ilegalmente.

Passageiros na minha situação ainda não eram enjaulados em centros de detenção e fui mandado para um quarto do Howard Johnson’s, no Brooklyn.  No hotel, eu dividi o quarto com um segurança da empresa terceirizada que cuidava das pessoas detidas no aeroporto.

O périplo durou três dias.

O guarda que me vigiava assistia televisão até muito tarde, soltava flatos altos e arrotava constantemente, enquanto comia pizza e falava coisas que eu não entendia.

Boa coisa não era, desconfiei.

Aquele olhar desdenhoso não deixava dúvidas de que aquele jovem negro tinha enorme desprezo por mim. E eu sentia alívio quando ele era rendido por um outro guarda.

As noites não tinham fim.

E eu esperava ele dormir para chorar.

Tinha medo de ser deportado e meu pai perder nossa modesta casa no bairro São Raimundo, único bem da família.

Será que iremos morar debaixo de algum viaduto? – eu me perguntava, cheio de culpas, soluçando sob o cobertor.

As leis de imigração eram muito diferentes das praticadas hoje pelo presidente Trump e consegui um defensor público, que representaria a minha causa em um tribunal de Manhattan.

Só fui ouvido após várias idas ao imponente prédio da Corte, já bem no final do expediente.

O juiz – um senhor que aparentava ter quase 70 anos – não conseguia esconder o cansaço.

Não sei o que o que ele viu em mim, mas o seu nome permanece guardado na memória, como permanecem os parentes consanguíneos e os amigos do peito.

Nunca esquecerei daquele nome escrito na placa ao lado do malhete que descansava à sua direita, sobre a mesa de cerejeira vermelha.

Francis James Lions tornou-se, para mim, uma espécie de santo protetor e dele jamais me esquecerei.

Os quatro dias que ele deu para que eu conhecesse a estátua da Liberdade, o Times Square e o Central Park se espicharam, é verdade. Mas eu tratei de cumprir, desde o primeiro momento, um juramento que fiz, silenciosamente, enquanto ele assinava a sentença favorável: “este senhor está concedendo a oportunidade de dar uma vida melhor para a minha família e não vou decepcioná-lo”.

Quando respirei o ar frio da rua na tarde-noite de 10 de abril de 1984, um novo homem nascia ali. Caía uma garoa fininha na Big Apple.

Fiz o check-inn no Taft por volta de 19 horas. Atravessei a Sétima Avenida, comprei uma vela em uma loja de conveniências, e a deixei ardendo ao lado da banheira da enorme suíte.

Às cinco da manhã, sem falar meia dúzia de palavras em inglês, desci os dez andares pelas escadas de serviço até chegar ao saguão.

Na mão direita, a mala da viagem.

Na esquerda, uma antologia de Drummond.

Notívagos, doidões em final de transe, transeuntes apressados em direção ao trabalho já se movimentavam na avenida ainda às escuras.

Um anjo invisível me guiou até o terminal rodoviário.

Eu nada sabia da cidade, mas fui caminhando na direção certa, como se estivesse cumprindo um roteiro escrito por uma entidade superior, que me guiava naqueles momentos de grande aflição.

No meio do caminho, parei diante de uma violinista que tocava algo que não consegui identificar. Vida de músico de rua não é fácil, eu sei. Dei a ela duas moedas e ganhei um sorriso grato.

Comprei a passagem na estação, entrei no ônibus que me traria a New Jersey e a música bonita continuou tocando dentro de mim.

Quase quatro décadas passaram, mas aquele requién de início de primavera permanece indicando o caminho a seguir.

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