O Passageiro do silêncio

Tudo se torna um desassossego. A comida fica ruim, o apetite some. Os ponteiros do relógios viram inimigos. Os dias não têm fim.
O local de trabalho se transforma num campo de concentração. A casa fica do tamanho do Maracanã. As coisas perdem o sentido. E reina a desordem.
Não há lugar no mundo para quem se desacerta, para quem se perde no caminho por miudezas vãs.
A vida lhe ensinará a dura lição do que é a tristeza.
E apontará o canto sombrio em que você abraçará a solidão.
Mesmo que esteja rodeado por uma multidão, você se sentirá só. Miseravelmente só.
O sono evaporará e se mudará para outro código postal. E a cama se tornará imensa e fria, com seus lençóis de arame farpado e travesseiros de espinho.
Os déjà vus se amontoarão.
O rosto dela se materializará na fumaça do cigarro ou no fundo de um copo de conhaque. Uma onipresença quase divina.
Assim como Einstein, que não imaginava uma bomba atômica na outra ponta de sua teoria, Deus – quando inventou o silêncio – também não sabia que o usariam para magoar.
O silêncio é nuclear.
E o mundo, ‘vasto mundo’, vai se comprimindo, as paredes se fechando, tirando-lhe também o ar. Ficará difícil respirar.
O sol não voltará a brilhar amanhã, dir-lhe-ão os seus botões.
Nem depois da manhã.
Nunca mais, nunca mais, nunca mais, concluirá você.
Como se, de repente, você se tornasse um cego, incapaz de ver a luz. Você vegetará perenemente num túnel sem fim.
É como se o carro tivesse ficado sem gasolina no meio do nada.
Faltará combustível para seguir adiante, e você temerá.
A partir daqui, apenas a inércia, o carro parado e a contagem modorrenta dos dias que ainda lhe restam. E nada mais.
É como se você estivesse exilado num país estrangeiro e não dominasse a língua.
E todos à sua volta falassem aramaico.
E tudo trouxesse a lembrança dela.
Como o casal que entra no táxi; a moça que bebe um capuccino; o homem que conversa com seu uísque; a noite que cai sobre a cidade enchendo os bares de homens e mulheres no cio.
Os carros trafegam lentamente e só a lembrança dessa mulher lhe fará companhia. Dirigem-se todos para uma grande festa em homenagem a ela.
Menos você.
Ela estará linda, com o vestido que você já despiu tantas vezes vindo de outras festas.
Ela, com o colar de pérolas que você presenteou. E os brincos tão sutis.
“Mudou o cabelo”, você dirá.
“Remoçou”.
Só você e a sua triste figura permanecerão inalterados.
O avião  cruza o céu em direção a Bruxelas, mas na sua cabeça ele voa para o domicílio aonde suas cartas não chegam e de onde seus telegramas são devolvidos.
O avião voa para Bruxelas ou Milão.
Para a velha Lisboa.
Ou para Madri.
Mas, para você, o destino é Istambul, quando na verdade é outro. Tão outro.
O avião cruza o céu em direção ao inferno. Com o piloto automático ativado. E você, cá de baixo, é seu único passageiro.

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