O presente maior

carrim 1 O presente maiorO que dar de presente a um menino no dia de seu aniversário?

Das minhas recordações da infância salta uma bola de futebol, presente de uma tia de Belo Horizonte.

Cresci achando ter ganhado menos presentes do que mereci.

Adulto, entendi que recebi muito mais do que me podiam me dar.

O que dar a um filho, menino, no dia de seu aniversário?

Um futuro brilhante?

Um lugar garantido em Harvard, quando ele crescer?

Um poema?

Uma canção?

O gol da vitória numa final de campeonato na escola?

Um dez em matemática?

Um pai e uma mãe honestos?

Estes últimos são, a meu ver, são o mais fundamental dos presentes.

Tudo o mais, vem junto, a reboque, dentro dos limites de cada um.

Eu, se pudesse, daria uma professora carinhosa e meiga.

E um carrinho de madeira, com capô de lata de óleo de cozinha e rodas recortadas de uma velha sandália havaiana.

Um pião, uma pipa e um carrinho de rolimã.

Um embornal com um estilingue e muitas bolinhas de gude.

E frutas maduras, cheirosas, suculentas, tiradas diretamente do pé.

Daria ainda manhãs de grama orvalhada.

Uma estrela que nunca se apaga.

E uma fogueira de São João.

Daria férias inesquecíveis na fazenda.

E um piau prateado, daqueles que dançam no extremo da linha que pende da ponta da vara de pescar.

Daria ainda um passeio no lombo de um cavalo troteiro.

E a visão confortante, ao longe, de uma chaminé fumegando na paisagem.

Construiria uma estrada margeada por flores silvestres, margaridas, cravos, lírios e jasmins.

Daria um conselho de avô.

E um mergulho no riacho.

Uma ducha na cachoeira.

Uma lua cheia.

Noites sem pesadelos, sem bruxas malvadas ou dragões cuspidores de fogo.

Chuvas?

Só se fossem as de verão, cantando “sol e chuva, casamento de viúva”.

E o ar com cheiro da terra molhada e um arco-íris, com seu pote de ouro, bem no fim.

Daria-lhe ainda uma festa de aniversário coalhada de balões coloridos num dia ensolarado, bem no começo da primavera.

E um bolo de chocolate, com uma vela numeral em cima, além um coral de amiguinhos do peito, puxando um desafinado, mas entusiasmado, ‘parabéns’.

Só que os tempos mudaram, eu sei.

E hoje só se fala em videogames, bicicletas cibernéticas, rollerblades, Ipods, celulares, roupas de grife, viagens a Disney e bonecos de super-heróis, daqueles que lançam raios laser dos olhos e punhos.

Não existe nada de errado nisto.

Mudaram os tempos e as prendas que damos aos meninos.

O que não podemos mudar é aquilo que acredito ser o presente maior.

No meu relicário, que é onde guardo as coisas de maior valor, estão o respeito e a admiração por um cara que sempre me deu muito mais do que pôde dar:

O amor pelo filho, esse sim, é um presente que dura para sempre. Herdei do meu como lição.

O resto, todo o resto, também é importante.

Mas é coisa menor.

Bem menor.

Grande é a infância.

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