O tal jequitinhonhês

jequi 1024x576 O tal jequitinhonhêsTadeu Martins é um grande sujeito das Minas Gerais, mais exatamente de Itaobim, cidadezinha do Vale do Jequitinhonha, fincada às margens da BR-116, a velha Rio-Bahia.

Trata-se de um amigo dos bons, daqueles que a gente coloca na prateleira de cima e que, à mesa, tem lugar cativo do nosso lado direito.

Professor de química em Belo Horizonte, cidade para onde se mudou após completar o ginásio em Teófilo Otoni, fez nome como funcionário da Secretaria de Turismo de Minas Gerais, tendo ajudado a criar vários festivais de música em todo o Estado. Saiu da cabeça dele o Festivale.

Ele já foi diretor de operações da Belotur e, entre muitas outras façanhas, transformou Newark e Belo Horizonte em cidades irmãs.

Seu Vale é uma das regiões mais ambíguas de Minas Gerais e do Brasil.

O povo é manso, com vocação para a arte, devotado, seresteiro, escultor do barro, adepto das folias de rei e do congado.

O Vale é seco, dcom sua terra árida e intrigantes contrastes.

Cortado pelo leito caudaloso do rio que lhe empresta o nome, o Jequitinhonha é um tremendo mosaico de grandezas e misérias, com sua gente valorosa dando alento ao mundo.

Os cantores Tadeu Franco, Paulinho Pedra Azul e Saulo Laranjeira e os poetas Gonzaga Medeiros e Saldanha Rolin são algumas destas pessoas de grande valor vindas de lá.

O poeta e cordelista Tadeu Martins é outra “onha desse Jequi”.

Lendo seu livro Jogando Conversa Fora – esse delicioso exercício cordelista -, tenho muitas surpresas boas. Numa delas, Tadeu mostra ao mundo o dialeto “jequitinhonhês”, que nada mais é que o jeito de sua gente falar.

De seus versos tirei algumas curiosidades, que divido aqui com vocês:

 

“Resfriado é difruço

Nome de rã é caçota

Quilo e meio pra nós é prato

E carro de mão é galinhota

Derrancado é estragado

Inginhar é encolher

Crocodilar é trair

Inricar é enriquecer

Conversa fiada é ingrisia

E bater caçuleta é morrer

Zanzar é andar sem rumo

E obrar é defecar

Apurado é caboclo nervoso

E ouvir é assuntar

Trabalho pesado é barrufo

E escrever é assentar

Veronca é uma moeda qualquer

Ana é o apelido de um cruzeiro

Nica também é moeda

E puba quer dizer dinheiro

Doutor é o nome do urinol

E goró é caboclo roceiro

Restojo é o mesmo que resto

E ruir é destiorar

Visage é assombração

E zunir é arremessar

Nascida é nome de furúnculo

E tinir alguém é matar

Gibeira é bolso da calça

Que nunca anda lotado

Ficar pensando é bistuntar

Cubar é olhar de lado

Desinxavido é inexpressivo

E caboclo elegante é espigado

Arrigestir é resistir

Melar quer dizer buzuntar

Ajutório é o mesmo que ajuda

Cobrir o corpo é ribuçar

Fôrgo é o apelido do fôlego

E dar fôrgo morto é roubar

Burriscar quer dizer rabiscar

A leitura é sabedoria

Coxé é quem manca muito

Encheção de saco é livuzia

Pipôco é o mesmo que estrondo

E cartilogência é categoria

Tiçar a mão, picar o tapa

Tudo significa bater

Pêia é caboclo esperto

Incapaz de esmorecer

Deu upoa é ficou difícil

Mas foi fácil você entender”

 

Entendeu?

Nem eu.

Sobre o autor

Roberto Lima nasceu em Pedra Corrida, Minas Gerais e vive nos Estados Unidos desde 1984. Jornalista e escritor, publicou Colosso Ciclone e Tango Fantasma.

Related posts

Comentários

Send this to friend