Ontem e amanhã

sa roberto Ontem e amanhãNão acompanhei os primórdios do que viriam a chamar de Rock Rural, rótulo que alguém da imprensa inventou para designar as canções de um grupo de artistas brasileiros do início dos anos 70. Fortemente influenciados pelo Rock And Roll, a viagem musical passava inevitavelmente pelo interior do Brasil. Eles misturavam guitarras elétricas com violas e violões, e a temática de suas letras retratava muitos sentimentos inerentes àquela região do país, as paisagens do sertão.

Era Londres, Nova York e Memphis, mas não fugia das raízes brasileiras.

Eu era garoto ainda, quando fui mordido pelo marimbondo da música.

Inquieto, escutava a tudo no rádio, e me apaixonava por muito do que saía do caldeirão fumegante da MPB de então.

Para mim, a música chegou nas armadilhas poéticas sempre geniais de Chico Buarque, nos agudos cristalinos de Milton Nascimento, na mistureba de Belchior, nos trêmolos indomáveis de Fagner, na emoção derramada das interpretações de Elis e Bethânia, na irreverência de Caetano e Gil – de quem eu não entendia o Tropicalismo, ou a sua “mais completa tradução” – e Sá e Guarabyra.

Quando descobri que esses últimos fizeram trio com Zé Rodrix, antes de serem dupla, eu já sabia cantar todas as canções de Pirão de Peixe Com Pimenta, o primeiro disco que comprei em minha vida.

Abro aqui um parêntesis:

Ganhei 50 dinheiros para afixar cartazes de um político, candidato a senador, um certo Tancredo Neves. Recebi meu primeiro soldo e fui correndo para a loja de discos, saindo de lá com os bolachões Alucinação (Belchior) e o já aludido Pirão de Peixe Com Pimenta, que continha Espanhola e o grande sucesso Sobradinho.

E o mar virou sertão. Ou terá sido o contrário? Já nem sei. Fecho o parêntesis.

Anos depois, conheceria Sá e Guarabyra nos bastidores de um show em New Jersey. Fui o mais profissional possível, na condição de repórter, tentando esquecer a todo instante que estava diante de dois ídolos de minha infância, dois caras que foram fundamentais no surgimento de minha paixão pela música, autores de meu primeiríssimo disco.

Entrevistei-os para o BV, rolou uma empatia imediata e Guarabyra se sentiu à vontade para mostrar uma crônica de sua autoria, que ele carregava dentro da carteira já havia algum tempo. Li e gostei muito. Trocamos telefones e eles foram fechar a turnê americana, com shows em Boston e Miami.

Uma semana depois, eu estava em casa, no início da noite, quando tocou o telefone. Era o Guarabyra, ligando de sua suíte no Hilton Hotel, convidando-me para jantar. Fui voando.

Exilamo-nos no fundo do O Poeta – um restaurante que eu freqüentava na altura – e não tardou muito e chegou o Sá. Para completar a festa, o compositor Celso Adolfo, também de passagem por Nova York e os ex-craques de futebol Joãozinho e Reinaldo se juntariam a nós. Foi uma noitada que ficou para a história. Devo ter aportado em casa por volta das seis da manhã.

A partir daí a amizade com Guarabyra só fez crescer. Ele começou a colaborar como cronista do BV e passamos a nos ver todas as vezes que eu ia ao Brasil. Em nosso último encontro, Sá e Guarabyra haviam voltado às origens, retomando o trio com Zé Rodrix, a quem eu viria a ser apresentado numa bar paulistano.

Num dia em que Guarabyra e eu detonamos uma quantidade absurda de chope, Zé Rodrix chegou de mansinho no meio da tarde e sentiu o nosso clima. Bebeu água mineral e não deve ter ficado mais do que duas horas na nossa companhia.

Não foi por muito tempo, mas deu para perceber o porquê de Guarabyra gostar tanto dele. Atento, sensível, inteligente e rápido de raciocínio, Zé Rodrix era um dínamo, um montão de energia e idéias por trás dos óculos de grau. Na saída, deu-me um abraço e prometemo-nos que voltaríamos a nos ver em São Paulo, numa outra ocasião. Mas eu não voltei por lá.

Na semana passada, recebi a notícia de que Zé Rodrix partiu, fulminado por um infarto agudo do miocárdio. Baixou um banzo.

Hoje, pela manhã, Guarabyra enviou-me por email uma canção inédita do trio, que compõe o cd que se preparavam para lançar numa grande turnê nacional. O nome da canção, “Amanhã”.

Ainda não consegui arrancar do peito a coragem necessária para escutá-la.

No lugar mais fundo de mim, hoje ainda é ontem.

 

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