Os morcegos de Coimbra

morceguim roberto Os morcegos de CoimbraSofro de bronquite alérgica.
É sempre um calvário quando chega outubro ou entro em algum lugar muito antigo.
Outubro traz o outono nortenho nas Américas, e com ele chega a mudança nos boletins meteorológicos e no meu senso de humor.
No que a visão se acinzenta e o casaco sai do armário, inicia-se um processo que me remete a invejar a sina de algumas aves mais afortunadas, que voam em bandos para paisagens mornas quando o clima começa a virar.
O cheiro e a mudança do tempo me adoecem. É fato.
Toda vez que entro numa igreja antiga ou numa biblioteca cujo acervo abriga obras centenárias, recorro ao lenço bordado com as iniciais CRL, presente de minha mãe.
Eu tusso muito ao impacto do ácaro, um de meus tantos algozes.
Ácaro, álcool, tabaco, insônia, música sertaneja e haicais que nasceram trocadilhos estão no topo da lista.
As igrejas de Ouro Preto sempre mexeram emocionalmente comigo, mas deixam os brônquios impregnados de uma espécie de pó imperceptível aos olhos, além daquele ar de Aleijadinho misturado ao perfume de Marília de Dirceu, quando se abraçam, tão logo eu chego à rua procurando alívio.
Em ida recente a Portugal, visitei a deslumbrante biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra. Pensei que fosse morrer. O oxigênio parecia ter desistido de mim.
Construída em estilo barroco no século 18 pelo rei João V, é um monumento de inestimável valor histórico e abrigo de obras raríssimas.
São três pisos, quase 56 mil volumes, com destaque para o acervo de livros antigos, compostos por documentos do Século XVI ao Século XVIII. Uma das jóias é a primeira edição da “Fábrica do Corpo Humano”, atlas de anatomia do belga Andreas Vesalius, lançado em 1543.
Assustei-me com a presença excessiva de morcegos, dependurados de cabeça para baixo no teto alto da edificação. Acalmei-me, informado de que a presenças deles é necessária no combate às traças, implacável inimiga dos livros.
Lembrei-me da Biblioteca Joanina de Coimbra na última ida a Minas Gerais, quando abri o guarda-roupa em que minha mãe conserva algumas lembranças do meu pai.
Uma camisa branca com delicadas listras pretas, outras de vocação discreta, algumas calças de tergal e um uniforme completo dos seus dias de policial militar.
Retirei a vestimenta e observei que as traças puíram pedaços do tecido, deixando rombos em várias partes. Fizeram um banquete da roupa que um dia cobriu a nudez de Seu Totoca.
Coloquei-a sobre a cama, e uma vida inteira passou diante dos meus olhos.
Elas carcomeram os beijos que me dava na testa quando chegava do trabalho, seus conselhos e reprimendas, e um pedaço daquela figura que foi grande influência na pessoa que eu me tornaria.
Por um breve instante desejei que uma colônia de morcegos tivesse feito morada naquele armário, vindos de Coimbra, talvez, preservando para a posteridade um pedaço da história do grande homem que foi meu pai.

Era agosto, mas uma incontrolável crise de tosse – e saudade – tomou conta de mim.

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