Pagando a conta do dia

carnerim Pagando a conta do diaDurante muito tempo tive o costume de avaliar o dia quando me deitava para dormir. Desnecessário dizer que muitas vezes perdi o sono, dependendo de uma ação errada minha, ou de alguém para comigo.

Perdoar é uma dádiva. E não ser dadivoso com alguém pode pesar tanto quanto não o terem sido com você. De uma forma ou de outra, as consequências são sempre cruéis. Exercitar o perdão deveria ser uma obrigação. E não uma opção. E foi assim que o perdão foi, muitas vezes, meu calcanhar de Aquiles, motivo de grande frustração.

Preciso aprender a perdoar.

E a exercitar um monte de outras virtudes, que deveriam fazer parte da cartilha de toda pessoa do bem. Tento me melhorar.

Mas eu falava do costume de avaliar as ações ao fim de cada dia, hábito que deixei de praticar.

Tão logo me deitava, projetava uma tela no teto do quarto e esmiuçava as últimas 24 horas com o compenetramento de um legista que disseca um cadáver:

Fui ríspido com alguém?

Sim.

Ou, não.

Mas abri a porta para uma senhora bem velhinha no correio.

E paguei sozinho a conta do restaurante.

Comprei ingressos para um show que só vai acontecer daqui a seis meses.

Estarei vivo até lá?

Morrerei?

De que morrerei eu?

Ficarei doente no dia? Doarei os ingressos a algum amigo?

Virei mais 35 anos? Farei da felicidade de quem estiver comigo, a minha própria felicidade?

Hoje fiquei triste porque meu time perdeu.

Fiquei feliz demais com a vitória de meu time.

Não deu os 18% de gorjeta ao garçom.

Emprestei o carro a um amigo.

Sorri para uma criança na rua.

Não disse eu te amo a quem de direito.

Não fui afetuoso o suficiente.

Fui rude nesta ou naquela situação.

Mostrei o dedo médio – sim, aquele infame dedo médio! – a alguém no trânsito.

Passei uma luz amarela. Uma luz vermelha.

Andei acima do limite de velocidade.

Dei a vez a uma pessoa no trânsito, apesar de ser minha a preferência.

Fui gentil com alguém.

Fui atencioso.

Fui dócil e doce com quem de direito.

Fiz que não vi um antigo desafeto na rua, apesar de ele ter me cumprimentado com cara de quem queria fazer as pazes.

Dei dinheiro a um veterano de guerra, que esperava no frio pessoas de coração generoso.

Mesmo não possuindo coração tão generoso, enfiei a mão no bolso e colaborei, impressionado, talvez, com as pernas mutiladas e o estado precário de suas roupas.

Mas dei. E dei de bom grado. Mas ainda preciso amolecer mais o coração.

No trabalho, a crônica não saiu boa.

Agredi a gramática com erros grotescos, por pura desatenção.

Ou, não, hoje a crônica saiu dentro dos conformes, redondinha. Não preciso me envergonhar dela.

Exagerei no chope.

No macarrão e no açúcar.

Extrapolei no uísque.

Prolonguei o horário do almoço.

Deixei de retornar um telefonema.

Deixe de retornar vários telefonemas.

Não respondi ao e-mail de fulano ou fulana.

Não fiz caminhada pela manhã.

Telefonei para Minas Gerais e disse à minha mãe da saudade que sinto de todos.

Há semanas que não ligo para Minas Gerais, deixando a impressão de que não sinto saudades de ninguém.

Nem de pai, nem de mãe.

Deixei de ir a este ou aquele lugar.

Adiei para o futuro esta ou aquela ação.

E por aí afora…

Era assim que tratava de buscar soluções para situações cotidianas antes da chegada do sono. Dependendo do tamanho da encrenca ou da dúvida, o sono não aparecia e eu ficava ali, rolando de um lado para o outro, penitenciando-me por este ou aquele pecado, independente de seu calibre ou teor.

O medo de me tornar um zumbi e não conseguir mais dormir fez com que eu interrompesse o hábito de pesar os prós e os contras, adiando para o futuro a possibilidade de me tornar uma pessoa melhor. E de fazer, assim, a minha parte para um mundo melhor.

Afinal, a paz do indivíduo é a paz do mundo.

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