A perda de um grande pioneiro

pau brasa A perda de um grande pioneiroRecorro ao dicionário em busca do significado da palavra pioneiro e lá encontro:

adjetivo substantivo masculino

1.

que ou aquele que está entre os primeiros que penetram ou colonizam uma região; desbravador.

“p. do movimento bandeirante”

2.

fig. que ou aquele que vai adiante, que anuncia algo de novo ou se antecipa a alguém ou a algo; precursor.

 

Quem chega aos Estados Unidos nos dias de hoje deve muito aos pioneiros, mas isto não lhes passa pela cabeça.

Os desbravadores brasucas que chegaram aos Estados Unidos na gênese da nossa imigração tiveram diante si uma tarefa hercúlea, naquilo que corriam atrás do sonho de vencerem em uma terra de costumes e língua muito diferente daqueles trazidos na mala da viagem.

Tiveram que cavar em terra dura, sob a desconfiança do olhar nativo, estigmatizados pela trajetória do papagaio Zé Carioca, um malandrão do Rio de Janeiro e que foi uma espécie de acessório, entre os tantos balangandãs de Carmen Miranda nos filmes de Hollywood.

Este é o estereótipo que tiveram que vencer, em um tempo muito distinto deste que vivemos hoje. E conseguiram provar que nem todo o brasileiro que aporta por aqui é um papagaio com as características do bon vivant do personagem de Walt Disney.

Hoje, quem tem vontade de comer uma feijoada, dançar um samba ou assistir um jogo do campeonato brasileiro de futebol nem precisa sair de casa. Mas nem sempre foi assim.

Os pioneiros se encarregaram de furar bloqueios quase intransponíveis, construindo pontes imaginárias entre um abismo que separava os dois países,

Por estas pontes passaram milhares de conterrâneos nossos vindos de diferentes regiões brasileiras. Passaram também elementos fundamentais da nossa cultura, que vão desde a farinha de mandioca e a carne seca, aos primeiros jornais trazendo notícias requentadas de nossa pátria e a música, entre tantas outras coisas.

Tudo o que o imigrante brasileiro tem acesso, hoje, foi fruto do trabalho de pioneiros que levavam muito a sério o ofício de viver em um contexto norte-americano, sem perder a identificação com a terra natal. Muito mais do que isso, sentiam-se na obrigação de difundir a brasilidade, tornando o país mais atrativo para quem quisesse passar férias lá.

Foram os pioneiros que trouxeram para cá as areias de Copacabana, as montanhas de Minas e o legítimo churrasco gaúcho.

Trouxeram as especiarias baianas, a competência dos paulistas e a vitória-régia da floresta amazônica.

E trouxeram muito mais.

Poucos pioneiros foram tão significantes quanto Benito Romero, que veio a falecer anteontem, após uma luta feroz contra um câncer no intestino.

Conheci Benito na segunda metade dos anos 1980 e fiquei muito impressionado com a sua obstinação. Homem de muitas habilidades e sonhos, promovia uma noite brasileira em um clube de jazz da rua 46. O Red Blazer foi, durante muito tempo, uma espécie de consulado da alegria brasileira.

Lá, dançava-se forró e samba, comungava-se de caipirinha e saudade. Era lá que nos abraçávamos e reciclávamos os corações saudosos de casa.

Benito Romero sangrava verde e amarelo naquele espaço geográfico da ilha de Manhattan, que posteriormente ficaria conhecido como Little Brazil. E tinha muito orgulho disto.

Ao lado de outros cidadãos de imenso valor, ele foi uma espécie de ponta de lança de um time canarinho que deveria ser reverenciado por todos nós, que chegamos depois. Mas isto, infelizmente, não acontece.

Ele fez muito por nossa cultura e por nossa comunidade, embora nem sempre tenha sido reconhecido por isto.

Fez por merecer reconhecimento e honrarias que nosso governo e povo nem sempre reservam aos que verdadeiramente merecem.

Sua morte deixa na boca aquele gosto amargo de que eu próprio tenho com ele uma grande dívida.

Ele vai para um outro plano, deixando entre nós uma lacuna difícil de ser preenchida.

Vai levando sua bandeira com a inscrição ordem e progresso.

Vai levando o canto dos bentevis de sua Minas Gerais e uma toada de Milton Nascimento.

Levando, acima de tudo, a certeza do dever cumprido, do legado deixado e a visão derradeira da semente que ajudou a plantar e hoje é uma árvore frondosa em pleno coração do Central Park.

 

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