Quadrúpede (I)

tio kledir Quadrúpede (I)Há anos meus filhos insistiam com a idéia de termos um cachorro. Minha posição sempre foi clara: “se entrar um animal nessa casa, eu saio”.
Não é que eu não goste de animais, eu adoro. O problema é que não tenho tempo pra cuidar e filhos, você sabe como é. No início tomam conta, saem pra passear, dão banho, comida. Com o tempo, abandonam as funções e aí… sobra pra quem?
Pois bem. Certo dia, meus filhos resolveram testar minha intransigência para saber se eu estava falando a verdade ou tudo não passava de um blefe. Foi assim. Fui chamado à sala, onde me disseram, haveria uma surpresa. Não era meu aniversário, nem dia dos pais. Fiquei intrigado. O que será?
Dei da cara com um filhote de Golden Retriever lindo, que sorriu pra mim como se eu fosse um pacote de ração. A coisa mais fofa do mundo. Confesso que contribuiu para minha simpatia instantânea o fato de o bichinho estar vestindo a camisa do Sport Club Internacional. Foi um golpe baixo dos moleques, apelar para meus sentimentos mais profundos. Mas numa hora dessas, eles são capazes de tudo.
Claro que não saí de casa e portanto minha palavra caiu em descrédito. Desceu vários degraus na escala de valor, de autoridade, de algum respeito que eu ainda tinha no ambiente familiar. Cada vez mais estou me tornando um inútil dentro de casa, coisa que só não acontece definitivamente porque alguém tem que pagar as contas. Inclusive as do cachorro. Sim, porque esses bichinhos não comem resto de comida nem usam sabão grosso pra tomar banho. O xampu dele é mais caro do que o meu e o preço da ração desequilibrou completamente o orçamento doméstico. E mais: veterinário, vacinas, comprimidos, biscoitinhos, osso de plástico, cama, tapete, coleira, spray pode-não pode e até uma bolsa pra carregar a criança, quer dizer, o animal. Que eu carinhosamente comecei a chamar de Quadrúpede.
Aí começou a fase predador. É a natureza do bicho, ele precisa se manifestar como os da sua raça. Estraçalhou um sofá da sala e a chaise long do quarto do meu filho, uma relíquia de família. Um transformador de laptop, um casaco de veludo e vários calçados. Dois ou três livros, um bolo de aniversário e o conjunto de cadeiras da sala de jantar.
E ainda tem, é claro, aquela triste realidade para quem se aventura a criar um animal doméstico: ele faz cocô e xixi. E não sabe usar o banheiro.

                           (continua…)

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