Uma questão de bom senso

O caso do menino Sean Goldman teima em não sair dos holofotes da mídia e da opinião pública. O que era para ser uma simples questão familiar está extrapolando para outras esferas e chegando a lugares inimagináveis.

Não raro, americanos falam comigo nas ruas, ao me saberem brasileiro.

Chegam do nada, dizem que o governo brasileiro não presta, detonam o Lula, perguntam se nosso presidente não tem filhos.

Sobrou até para a mãe do Lula. E, mesmo não sendo explícitos, acho que sobrou também para a minha.

Pobre dona Rute, que não pariu Sean.

Que não pariu os avós maternos de Sean, que não pariu o pai do garoto, e a esta altura deve estar andando em bocas de Matilde.

Graças ao episódio Sean Goldman, a Bossa Nova já não presta, as praias de nosso país já não são mais belas e a garota de Ipanema já não é a tal.

Acho que em tempos de George Bush, a turminha de Rumsfeld já estaria pondo de prontidão os Marines para uma invasão ao estilo daquela ocorrida na segunda guerra mundial, na Normandia, com toda a pirotecnia cabível nesses novos tempos, com cobertura 24 horas por dia da CNN e entrada triunfal dos veículos anfíbios a partir das areias de Copacabana.

Tudo bem. Exagerei. Reconheço.

Mas é que, sempre que o assunto com um interlocutor americano ameaça derivar para o caso da batalha judicial envolvendo o garoto Sean, tento mudar o rumo da prosa.

Falo da reprodução in-vitro dos protozoários de cor lilás, do novo governo estabelecido no Gabão, da combustão a partir do álcool extraído das samambaias a ser utilizado na propulsão dos novos foguetes nucleares e até de beisebol, temas que não domino nada bem. Mas sei que tudo vai acabar em Sean Goldman.

Sou massacrado e nada tenho a ver com a estória.

O filho não é meu. Não sou juiz. Sequer vivo no Brasil. E ainda tenho como atenuante o fato de que torço para que o melhor aconteça ao garoto.

É o poder aterrador da mídia. Será?

O fato é que está todo mundo muito alterado com o assunto.

Esta manhã, logo no primeiro telejornal,os repórteres cobraram de Hillary Clinton uma posição sobre o assunto.

E ela, que deveria estar falando da crise dos mísseis nucleares com a Coréia do Norte ou do ultimato dado por Obama – com relação à formação imediata de um estado palestino -, tem que se manifestar com uma posição oficial do governo americano a respeito.

Na semana passada, o deputado Chris Smith ameaçou sancionar o Brasil, cortando subsídios dos produtos livres de taxação alfandegária, se o Brasil não “devolvesse” o menino imediatamente.

Achei-o um oportunista. Daqueles de discurso populista, demagogo ao extremo e o que mais couber nessa sentença.

É que me dá coceira, sempre que vejo alguém tentando extrair dividendos políticos a partir da dor alheia.

Chris Smith tem discernimento suficiente para saber que se trata de uma pendenga familiar. E que, incapazes de entrar num acordo que preservasse, acima de tudo, o bem-estar da criança, colocaram a batata quente nas mãos de um juiz. Ou de vários juízes.

Não se trata de o Brasil devolver o menino Sean, ou não.

Não é o Brasil que deve entregar a quem de direito, no caso o pai biológico, essa criança.

Essa decisão não cabe ao Brasil.

Onde foi parar o bom senso?

Que o pai biológico e os avós maternos do menino entrem em acordo, por amor a Sean.

E que encontrem formas tranqüilas e sem ressentimento para que os avós possam visitar o garoto a qualquer momento, ou o recebam durante as férias escolares ou quando for conveniente a todos.

Essa queda-de-braço, essa batalha de quereres já foi longe demais.

O lugar de Sean é ao lado do pai. E nem caberia a mim, ou a um terceiro qualquer, se manifestar sobre isto.

O circo armado em cima desta situação só está fazendo mal à criança, e as conseqüências práticas disto tudo, infelizmente, o tempo tratará de mostrar. O que é uma pena.

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