A redescoberta do óbvio

Participei de um seminário sobre internet, recentemente, e o preletor falava da verdadeira revolução que ela trouxe, o que não é nenhuma novidade. Foi um festival de chuva sobre o molhado, até que começou a relatar benefícios e malefícios daquela que, a meu ver, foi a maior invenção do século que passou.

Achei bastante interessantes as colocações do palestrante, quando abordou (e citou!) algumas indústrias que foram beneficiadas e outras que foram devastadas pelo surgimento dessa grande mania mundial. Distraído, ainda não havia atentado para algo tão óbvio.

A indústria fonográfica é uma das que mais penam, com o compartilhamento de canções pela rede e seus executivos, aturdidos, procuram caminhos para se adaptar à nova realidade sem cair no risco de entrarem em extinção. Ninguém mais compra disco, filme e é cada vez maior a peleja de lobistas, para que sejam implementadas leis mais rigorosas, que punam exemplarmente quem se valer da net para baixar arquivos de música ou filme.

A batalha ainda nem começou, mas li por aí, que uma dona de casa foi condenada a pagar 70 mil dólares por ter baixado uma única música em seu computador. Não acompanhei o desdobramento da história, e não sei o que foi feito da pobre mulher. Setenta mil dólares por uma música? Dizem que Elton John cobra 50 mil por cada música que canta em um show. Valia mais ela ter levado o astro pra cantar uma canção em sua sala.

Leio os jornais pela internet todos os dias. O próprio Brazilian Voice já está disponível na rede e pode ser lido com o recurso que dá a impressão “virtual” de que se está manuseando o tablóide, abrindo-o página por página.

Uso a internet para muitas coisas. Para trocar correspondência com pessoas do meu círculo pessoal e profissional, para obter dicas de culinária, informações metereológicas – levar ou não o guarda-chuva ? -, dicas de lazer e congêneres. Mas uma das coisas que mais tem me trazido prazer na internet, é ter redescoberto a poesia, espalhada por milhares de blogs interessantíssimos.

Graças à internet, pude reler clássicos que não foram republicados ou descobrir nomes como os do moçambicano Mia Couto, os portugueses Daniel Faria (que morreu tão jovem), Eugênio Andrade e Maria Gabriela Llansol, e muitos outros.

Sem falar nos ainda ilustres desconhecidos e que certamente sairão da categoria “Cult” e cairão no gosto dos apreciadores do gênero. Estou adorando essa fase de redescoberta da poesia e isto tudo está fazendo uma verdadeira revolução dentro da minha cabeça e do meu coração.

Sinto-me mais emotivo, desde que comecei a reler poesia. O embrutecimento provocado pela obrigação de ter que consumir os noticiários diários por força do ofício, está aos poucos sendo amaciado e tenho me pegado com atitudes mais suaves

Quando comecei a escrevinhar coisas, ainda adolescente, a poesia foi a minha primeira forma de incursão no reino das palavras.

Publiquei duas obras ainda muito jovem e hoje não as teria publicado naquele momento, optando certamente por testar os poemas na blogosfera, antes de lhes dar o formato de um livro. Além de ser uma espécie de vitrine, a internet funciona também como uma espécie de barril de carvalho, cumprindo o seu papel de amadurecer aquilo que ainda não está pronto para ser consumido.

Quero muito voltar a escrever poesias. Ainda ontem, peguei-me ensaiando uma crônica-poema, em que questiono a origem dos pássaros. Enquanto o poema não sai, vou continuar bebendo na fonte desses grandes poetas, que aprendo a apreciar cada vez mais, preenchendo as horas que antes eram devotadas a atividades menos nobres como, por exemplo, assistir ao noticiário das 10 da noite, sorvendo em vorazes mordidas, esse pão da poesia alheia. Versos como este de Daniel Faria, que escolhi para retratar meu momento que é derradeiro, definitivo:

(…) O que dói

É não poder apagar a tua ausência

e repetir dia após dia os mesmos gestos

O que dói

é o teu nome que ficou como mendigo

Descoberto em cada esquina dos meus versos

O que dói

é tudo e mais aquilo que desteço

Ao tecer para ti novos regressos”

A poesia saiu do casulo e teceu seu regresso à minha vida. E entrou, como uma gentil borboleta, voando e pousando em cada cantinho esquecido de mim.

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