O adeus a um grande brasileiro

files.php?file=1011 17 682464544 O adeus a um grande brasileiroNossas comunidades possuem grandes brasileiros que, no ofício de viver, saem-se maiores e melhores que o encomendado. Eliomar Lima era um desses sujeitos.
O Seu Lima, que os brasileiros de Newark aprenderam a amar e respeitar era uma dessas almas raras, sujeito cheio de predicados, que contagiava a todos com sua alegria e infindável energia.
Ele foi um dos pioneiros a fazer o que chamam hoje de "serviço de consulado". Pegava documentos, procurações, requisições de passaporte, autorizações de viagem e os levava ao consulado em Nova York, facilitando a vida de todos nós.
Ele desembaraçava tudo, enquanto o titular do documento aguardava no conforto do lar o seu desenrolar. Conhecia o ofício, sabia de cor os pré-requisitos para a obtenção de documentos brasileiros, e o fazia de forma legítima, honesta, absolutamente legal.
No consulado, fez-se querido por todos. Era paparicado pelos funcionários da repartição, que reconheciam na sua humildade e na vontade de servir, virtudes em vias de extinção.
Num ambiente marcado pela competitividade, pela inveja e pela promiscuidade, que são muitas vezes as comunidades imigrantes, Seu Lima sempre foi uma exceção.
Era amado por adultos e crianças, levava sempre um sorriso (como esquecer o sorriso de Seu Lima?) e uma palavra amiga a todos os lugares por onde passava.
Não sei de uma única porta que lhe tenha sido fechada, durante todos os anos que com ele convivi.
Sei que ele era do Ceará, que morara no Rio antes de emigrar e que, sempre que podia, estava nos eventos sociais de nossa colônia, acompanhado de sua inseparável esposa.
Há cerca de um mês, telefonei-lhe para pedir que tratasse da renovação de meu passaporte e aproveitei para convidá-lo para a festa de 20 anos do Brazilian Voice. Encontrei-o acabrunhado do outro lado da linha, a voz diferente do normal.
Não escutei o calor de antanho. Vi que algo ali não estava bem.
Seu Lima agradeceu o convite da festa, mas declinou. Disse que não se sentia muito bem. E que esse mesmo motivo, o levava a não aceitar a responsabilidade de cuidar da minha documentação.
Despedi-me dele, sem insistir e sem imaginar que aquele teria sido nosso último contato.
Na noite de sexta-feira, recebi um telefonema dando contas de que ele havia ‘pedido a conta’ e subido, para seu encontro definitivo com Deus. Fiquei reflexivo, durante horas, pensando nele, no seu legado, e na lacuna impreenchível que deixara atrás de si.
A morte de Seu Lima me faz pensar numa vontade antiga que tenho, já há algum tempo, de criarmos uma forma de homenagear, em vida, esses grandes brasileiros que vivem anônimos para o Itamarati, mas que são legítimos embaixadores de nosso país em terras estrangeiras.
Esta semana, planejo entrar em contato com o cônsul-geral José Alfredo Graça Lima e, mesmo sabedor de que ele está prestes a se transferir para Los Angeles, pedir a ele que analise com carinho, a possibilidade de criação de uma espécie de comenda para estes grandes brasileiros que quase nunca são reconhecidos por sua contribuição na melhora de nossa sociedade.
Pela honestidade, sua atitude sempre positiva e o bom exemplo deixado para a próxima geração de imigrantes brasileiros neste país, Eliomar Lima teria merecido, em vida, esse momento de alegria no reconhecimento por parte de nossas autoridades e de todos nós.
Como disse o empresário Kiko Salles, algumas pessoas deixam sua marca ao fazerem grandes coisas. Seu Lima deixou sua marca fazendo pequenas coisas, que tornaram grandioso o conjunto de sua obra.
Que a terra lhe seja leve, Seu Lima.
Minha admiração e homenagem.

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