O novo muro da vergonha

Os motoristas de taxi são as pessoas que mais entendem de tudo. Eles e os barbeiros. Esta teoria não é minha. Foi Edson Balinha, um grande filósofo de botequim lá de São Raimundo que cunhou essa preciosidade, adicionando que, caso fosse ele, Balinha, o presidente da República, contraria um barbeiro para ser ministro da Justiça e um taxista para a pasta da Economia.

Faz sentido.

Basta sentar na cadeira de um barbeiro – não de um cabeleireiro, um barbeiro! – para se inteirar do que se passa no mundo. Os caras discutem de futebol a teologia com uma propriedade de um PHD burilado em Harvard.

Os motoristas de taxi são um capítulo à parte.

Possuem opiniões contundentes, mandam para a cadeia políticos corruptos, sabem tudo do ultimo plano econômico e das manobras dos bastidores do poder; contam inconfidências de passageiros famosos (foi assim que fiquei sabendo de uma belíssima atriz global que tem a feia mania de cutucar o nariz e fazer aquelas famosas bolinhas usando o dedo indicador e o polegar) e de um ex-jogador da seleção brasileira que frequentava uma boate gay em São Paulo.

Em minha última viagem ao Rio fiz três corridas com um mesmo taxista. Ele me pagava na casa de Kledir, na Joatinga, e me despejava no prédio do Itamaraty (o velho, o legítimo Itamaraty, um lugar belíssimo e ainda com resquícios da época do Império onde se desenrolava o congresso Brasileiros no Mundo.

Foi esse simpático juizforano radicado há mais de duas décadas no Rio que me contou do projeto do governo estadual (ou federal, não me lembro bem), de amenizar o choque visual dos turistas que abarrotarão a cidade durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas, diante da aparição chocante das favelas cariocas.

Segundo o nobre chofer, o governo irá erguer muros circundando as favelas nas imediações do aeroporto até a zona hoteleira, no coração da cidade. E farão ainda um trabalho “artístico”, pintando esses muros com “temas” que retratem o jeito de ser e viver do carioca.

E aí fiquei pensando nos painéis assinados por artistas famosos e mesmo alguns anônimos, muito talentosos, espalhados por toda a extensão do trajeto aeroporto-zona sul. Seriam 22 quilômetros de pura “arte”.

Eles certamente pintarão o samba, as mulatas, o futebol; reproduzirão paisagens pitorescas como o bondinho, o Pão de Açúcar, o morro Dois Irmãos, as praias de renome internacional como Ipanema e Copacabana, o Maracanã, as riquezas verdes do Jardim Botânico e muito mais.

Se os artistas tiverem liberdade de se expressarem livremente e puderem registrar em tintas verdadeiras as imagens tatuadas no muro, é muito provável que se retrate também as cenas do cotidiano que o nosso governo quer esconder, com o desatino dos que tapam o sol com uma peneira.

Cenas de Bang Bang, seqüestros-relâmpagos, invasões de morros por grupos de traficantes rivais, arrastões, o pavor estampado na cara do cidadão que às vezes nem consegue voltar para dormir em casa para não ser colhido no meio de um tiroteio entre polícia e bandido… Seria a nossa Guernica…

Achei a idéia – se é que o taxista tinha fundamento em suas palavras – de péssimo gosto. Os muros são, a meu ver, uma pífia demonstração de truculência e abuso. Fui contra a construção do muro que os americanos erguem na fronteira com o México e soltei fogos quando da derrubada do muro de Berlim. Muito mais que derrubar muros, é preciso demolir mentalidades.

Essa idéia do muro não apenas segrega e exclui socialmente um grupo de honrados cidadãos, como manda ao mundo uma mensagem errada.

As pessoas que vivem nas favelas não apenas do Rio – mas de todo o país -, estão à mercê de políticos demagogos que usam suas canetas para assinar decretos torpes, com o desprezo daqueles que empunhando uma vassoura, jogam o lixo para debaixo do tapete.

E gente não é lixo, não.

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