O cheiro de Deus (à memória de Roberto Drummond)

Feche os olhos, respire fundo, projete na parede imaginária que se ergue diante de você, não uma imagem, mas um aroma.

Resgate de sua memória a lembrança de uma coisa boa. Transcenda ao olfato e projete um cheiro de manga. De cajá-manga. E de pitanga.

Projete um cheiro de mar. Um cheiro de serra.

Cheiro de jaca madura. De Pequi.

Cheiro da pipoca estourando na panela mágica do carrinho do pipoqueiro na pracinha do seu bairro.

Cheiro do querosene queimando na trempe, que aquece a panela do carrinho do pipoqueiro da pracinha do seu bairro.

Cheiro de posto de gasolina.

Cheiro de oficina mecânica.

De lança-perfume.

Do perfume de alfazema.

E do bálsamo bengué.

Evoque o cheiro do álcool no algodão, antes da vacina ou da injeção.

Cheiro de um hospital brasileiro.

Cheiro de um jasmineiro.

Cheiro de cravos amarelos no caixão, adornando e perfumando os que partem.

Cheiro de fazenda, de estrume de boi e de chiqueiro de porcos.

Cheiro de churrasco no quintal do vizinho, num domingo, por volta das 11:30 da manhã.

Esse é o cheiro da inveja, meus amigos, uma inveja quase saudável.

Cheiro de tangerina, de bergamota ou mexerica, que é exatamente a mesma coisa, em diferentes regiões do Brasil.

Cheiro de chuva na estrada de terra levantando o poeirão.

Cheiro de feira.

Cheiro de pastel fritando em feira.

Cheiro de peixe. Peixe vivo. Peixe-frito.

De feijão saindo da panela-de-pressão.

Cheiro de hortelã. Cheiro de uva malbec.

Cheiro de talco pompom, com protex, que “protege o bebê”.

Cheiro de vela queimando na igreja. Cheiro de sacristia. E de confessionário.

Cheiro, mau-cheiro, de desodorante “vencido” em ônibus lotado em horário de ponto.

Cheiro de plantação de eucalipto.

Cheiro de pinheiral.

Cheiro de coentro.

De fumo de rolo.

E de manjericão.

Cheiro do guarda roupa reascendendo a traça, que é o cheiro do tempo transpirando.

Cheiro de naftalina. De creolina.

De pomada minâncora.

E de óleo de fígado de bacalhau.

Cheiro de biblioteca. De livro novo.

De lona de freio de caminhão, segurando o tranco a cem por hora numa descida de morro na Br-116. Ou na Fernão Dias.

Cheiro de banheiro de estádio de futebol, que é o cheiro de gol.

Cheiro de loção de barbearia. E de ponto final de ônibus.

Cheiro de rodoviária, que é o cheiro do adeus.

E o cheiro de Deus. Que é o cheiro de tudo isto, se manifestando num milagre que chamamos saudade.

Related posts

Comentários

Send this to a friend