Um homem em chamas

Um tanto febril de uma gripe, chego do lado de fora da casa e sinto um frio menos frio entrando por minha pele. Chego a estranhar.

Passarinhos de todas as cores saem de algum lugar misterioso e saltitam alegremente. E cantam com entusiasmo, como se estivessem amordaçados todo este tempo e que só agora estejam reautorizados a cantar.

Sempre gostei de ver passarinhos.

E de escutá-los.

Dizem que imigram durante os meses mais frios, e chego a duvidar que se mudem de mala e cuia para a Flórida, retornando agora, atendendo a um chamado do Criador.

Pode ser que Deus tenha criado uma porta mágica por onde eles entram e ficam no quentinho, até a friagem passar.

O sol ainda tímido desta manhã anuncia que vai chegar a qualquer momento e fico durante alguns minutos observando as árvores secas que povoam o meu quintal.

A névoa esbranquiçada que boia sobre a grama é como se fosse um efeito especial de algum filme de suspense.

Nunca entendi direito a dinâmica das árvores deste país.

No Brasil, quando uma árvore seca, ela morreu.

Aqui, não.

Elas perdem a folhagem, ficam só no esqueleto durante meses, mas renascem, lindas, em todo a sua glória e explendor.

Quantas vidas tem uma árvore Americana? – pergunto eu ao esquilo que faz malabaristos sobre a cerca que separa o quintal.

Mas ele não não deve falar português, dissimulo com meus botões.

E fico aqui, neste ritual matutino que é de puro esperançar.

Os espetáculos da natureza tanto na chegada da primavera, quanto no outono, são de encher os olhos, parecem um quarto de Monet. Quem vive por aqui sabe do que estou a falar.

Constato que as pessoas daqui tem um tanto de árvore nelas.

Mal começa o outono, começamos a definhar em alegria, vestimo-nos com casacos pesados, escuros, e nos mudamos pra dentro de nós próprios, numa espécie de hibernação auto-imposta.

A impossibilidade de atividades do lado de fora induz ao sedentarismo e a uma mudança de hábitos que afetam os lados físco e psicológico da pessoa.

Engordamos durante o inverno.

Entupimo-nos de comida, ostracismo e televisão.

Parece que também nós ficamos mais frios a partir de dezembro, como que a vida nos anestesiasse, nos tornasse dormentes a toda e qualquer alegria e prazer.

Com a chegada da primavera parece chegar também a redenção.

É como se renascessemos com as árvores e as aves.

Uma alegria saída sabe lá Deus de onde, quase uma coceirinha boa, vai tomando conta de nós e vai se alastrando pelas pessoas que tomam as ruas e parques da cidade.

Compramos roupas novas, fazemos planos, desenhamos viagens e verão.

Tornamo-nos mais corteses, damos mais bons dias, recuperamos o sorriso e o sorrir.

E rejuvenescemos.

Lembrei-me hoje de uma cena em que um ex-prefeito de Nova York incendiava um homem, sempre que o inverno saía de cena e a primavera chegava por aqui. Não sei é cena de filme ou de noticiário, mas era mais ou menos assim:

No rinque de patinação de Nova York ele ateava fogo a um dublê – destes que fazem as cenas perigosas de Hollywood – e o indivíduo dava uma volta pelo rinque, o corpo em chamas, e retornava ao ponto de partida, onde uma equipe competente apagava-lhe as chamas das roupas em questão de segundos.

Ao final, o prefeito declarava:

– Enquanto eu for prefeito desta cidade, incendiarei um homem toda vez que a primavera chegar.

Anos se passaram e a primavera se anuncia novamente por aqui.

E o homem incendiado, ardendo – em febre -, pelo menos hoje, sou eu.

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