A revista masculina, o pastor, o cronista e o cantor

Preciso parar com a mania de levar revistas masculinas para o banheiro. Até já tentei, como explicarei a seguir. Mas, juro, não compro essas revistas para ver as moças peladas. Faz tempo que não as adquiro para esse fim.

Compro pra ler as entrevistas e os artigos, que são geniais, e pelo excelente trabalho editorial que realizam.

Sim, eu sei. Ninguém acredita.

E esse, que julgo ser salutar costume, já me fez passar por algumas situações embaraçosas.

Há não muito tempo atrás, eu saía do mais íntimo dos redutos da humanidade, e esbarrei com um conhecido pastor evangélico. Na verdade, foi mais que um esbarrão. Foi um “encontrão”.

Ele, um pastor da velha guarda com fama de severo, tinha muita pressa de entrar. E eu tratei de colaborar o melhor que pude. Não sabia que era ele do lado de fora.

Já me preparava para sair do banheiro quando notei que a maçaneta se mexia nervosamente. Quem queria entrar, obviamente tinha pressa. Muita pressa. Colaborei.

Acho que ali, ao vê-lo suando nas têmporas, é que matutei pela primeira vez em toda a minha vida que, assim como qualquer um de nós, pecadores, pastores e padres também freqüentam banheiros.

E, também como nós, dependendo do que tiverem ingerido, estão sujeitos às intempéries intestinais.

Trombamos bruscamente e a revista masculina escorregou debaixo do meu sovaco, para cair no chão com as páginas centrais escancaradas.

As páginas, e as pernas de uma conhecida atriz de televisão, que revelava aos homens comuns desse mundo, um tanto bom de sua cobiçada intimidade. Num flash, recordei-me de ter lido em algum lugar sobre o cachê milionário recebido para posar para a revista. Mas este detalhe ali em nada importava.

E eu e o pastor ficamos com cara de dois cowboys, cada um com a mão em sua arma, olhando nos olhos do adversário, tentando adivinhar o próximo movimento. Ele portava uma bíblia. Eu, uma playboy.

Corremos os olhos pela fotografia colorida naquela fração de segundos, que nos pareceu – quero crer, também a ele -, uma eternidade.

Acho que foi naquele instante, que vi pela primeira vez as fotos desnudas da tal atriz (juro, eu estava lendo uma entrevista com o navegador Amir Klink).

Mas não tive como me explicar. E ele não tinha tempo para me escutar.

Apressado em acertar suas contas com a natureza, só teve tempo de me passar um olhar de descompostura, antes de bater a porta atrás de si. Segundos depois ouvi o barulho característico de alguém que não estava bem dos intestinos.

Fui para minha sala, refugiei-me detrás da escrivaninha e fiquei naquele estado de espírito que oscilava entre o envergonhado e o já conformado, esperando a bronca dele.

E ele veio dali a uns 15 minutos, mas não trouxe o sermão para o qual eu tanto me preparara.

Deve ter ficado constrangido com os barulhos da “natureza”, que ele sabia que eu escutara, do lado de fora do banheiro.

Veio, falou de um evento em sua igreja e eu achei melhor não tocar no assunto da revista. Estava de ótimo tamanho.

Enquanto ele falava, eu me prometia que, mesmo sendo a título de material de leitura para a duração “do procedimento” ali cabível, eu nunca mais entraria em um banheiro levando uma revista masculina.

Durante muito tempo mantive a promessa, até que no outro dia alguém apareceu com uma revista destas na redação, e não resisti.

O entrevistado era Marcos Nasi, o polêmico vocalista do grupo Ira. E nesta entrevista ele falava de sua trajetória na profissão de músico, gabou-se de ter namorado Marisa Monte e Marisa Orth, chamou o sertanejo Luciano de “anão de jardim” e contou “todas” as suas rusgas com a polícia.

Ele só se esqueceu de um episódio ocorrido em Framingham no início dos anos 90. Episódio este, que relembro aqui:

Após um show de sua banda no Ipanema ele ajudava e desconectar o equipamento, quando se aporrinhou com um fã bastante embriagado.

Pela ira do vocalista do Ira, o moço deve ter insistido para que ele cantasse uma música de Zezé de Camargo e Luciano. O cantor ficou possesso.

Nasi desceu do palco e já foi socando o pobre rapaz, que teve sangramento no nariz e não chegou a reagir. Nocauteado, apenas chorou.

Alguém chamou a polícia e Marcos Nasi foi algemado e colocado dentro da viatura.

Carlos Silva, que trazia o Ira ao Ipanema, foi conversar com os policiais, enquanto eu, que nada tinha a ver com o peixe, limpava o nariz do rapaz com um maço de guardanapos de papel e tentava convencê-lo a não prestar queixa. Na minha ignorância, isto poderia trazer-lhe alguns problemas, haja vista que ele era imigrante ilegal.

A vítima não prestou queixa e Nasi pode voltar ao Brasil com o grupo no dia seguinte, sem nenhum problema. Mas naquela noite eu não dormi.

Perdi o sono, arrependido por ter me envolvido na confusão, por ter interferido. No fundo do meu coração eu sabia que Marcos Nasi deveria ter passado a noite na delegacia. Ele não deveria ter ficado impune.

Em sua entrevista à revista masculina tantos anos depois, eu o vejo alardear que tem a ficha policial limpa. O que talvez seja verdade. Mas inocente, eu sei que ele não é.

Aliás, ele, Carlos Silva e eu.

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