Na bagagem do ex-presidente

Vejo na televisão a imagem de George W. Bush adentrando o helicóptero que o levará ao seu rancho, no Texas, onde ele inicia uma nova fase em sua vida.

Minutos antes, esse que agora é um ex-presidente, entregou ao seu sucessor Barack Obama um país mergulhado em duas guerras, trincado pela crise econômica e com a auto-estima em frangalhos, como se dissesse: Toma! É seu. Agora, se vira nos quatro!

O que levou George Bush, no helicóptero que o transportou ao Texas?

Terá levado sabonetes e toalhas dos banheiros da Casa Branca?

Terá levado uma almofada da sala oval, ou o seu travesseiro favorito?

Terá levado sementes das flores do jardim da residência oficial da presidência, para transplantá-las em seu quintal texano?

Terá levado talheres de prata?

Terá levado charutos, cinzeiros ou um chapéu de cowboy?

Presentes de dignatários de outros países terão cabido em suas malas, ou seguiram por terra, num caminhão da U-haul?

Será que Bush levou consigo um abridor de envelopes de prata, com a insígnia da presidência?

Terá levado algum livro da biblioteca? Algum souvenir?

Terá levado sua coleção de música country? Seus ternos bem cortados e suas gravatas vermelhas?

O que terá seguido por terra, em sua bagagem?

Será que ele conseguir fazer com que coubesse a ganância dos banqueiros e especuladores de Wall Street?

Terá levado um volume somente com a truculência de seus falcões?

Terá levado cópias dos discursos ufanistas de seu vice, Dick Chenney, ou o penteado austero de Donald Rumsfeld?

Terá levado um pouco do charme discreto de Condoleezza Rice, ou uma fotografia em preto e branco de Thomas Jefferson, retirada de alguma parede?

Terá levado um litro de sangue de um infante morto no Iraque?

Ou, a infinita dor de uma viúva de um marine tombado no Afeganistão?

Será que Bush alocou em sua mala a angústia de um desempregado de Detroit?

A frustração de um doente incapacitado de ter acesso ao seguro-saúde?

Terá levado a fragilidade de um aposentado?

Ou, a sensação de abandono de algum ex-proprietário de imóvel, que acabou de declarar falência e entregou ao banco a casa que não conseguiu quitar?

Será que ele levou consigo o que restava da alegria desbotada dos velhos da América, antes dessa sua administração?

Ou o desapontamento de um jovem, descrente com os rumos que tomou a nação e sem saber se poderá freqüentar, algum dia, a cadeira de uma universidade?

Terá levado o sorriso inocente de alguma criança?

Será que levou entre as suas coisas a incerteza de um imigrante indocumentado, ou a dor desses que deixam suor e juventude adubando esse solo, e que são humilhados cotidianamente como se fossem os culpados por todas as mazelas por que passa o país?

Será que levou consigo a tampa do poço? Sim, esse poço infinito, do qual nos últimos anos do seu governo não conseguimos ver o fundo… Será?…

O helicóptero levanta vôo e, lá de cima, George W. Bush deve estar vendo, certamente, a multidão que marcha enfrentando o frio cortante de Washington DC, com a alegria dos que vão a um desfile de carnaval em pleno verão.

Não sei se a massa que se arrasta freneticamente na frente do capitólio e dos principais monumentos da capital do poder sente ressentimento. Sente frio, é natural, mas um desejo maior os conduz em direção ao futuro.

Consigo imaginar que estejam sentindo o que eu sinto, nesse instante.

Isto, que vai além de um arrepio constante da cabeça aos pés, um frenesi que causa uma enorme vontade de cantar e abraçar todos os que cruzarem o meu caminho.

Bush levou muito da tranqüilidade do povo americano em sua bagagem, é verdade. E sei que levou muito mais.

Mas ele esqueceu-se de levar a nossa esperança, nossa vontade de virar o jogo e a fé em melhores dias.

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