De biritas e bitrucas

Não me lembro do nome do “filósofo” que cunhou essa frase, mas concordo plenamente: gosto é igual pescoço. Cada um tem o seu. No final, todo mundo se entende. E, feliz daquele de quem os amigos conhecem seu gosto e tentam agradá-lo, na medida do possível. Digo isto, porque Fábio Portugal me fez uma gracinha. Ele convidou-me para a inauguração de seu bar.

Não, Fábio Portugal não está abrindo um bar, um estabelecimento comercial, daqueles convencionais, imóvel de esquina, com letreiro luminoso da Budwiser na janela, pôster de cigarros Hollywood na parede e uma juke box num canto, onde pode-se ouvir de Frank Sinatra a Reginaldo Rossi.

Ele pediu ao artista Artur Moreira que projetasse um bar para a sua casa, e o trem ficou danado de bonito.

Particularmente, eu não gostaria de ter um barzinho em casa. Talvez por saber do perigo iminente de ter, tão pertinho de mim, um convite às tentações e à cirrose.

Sempre biritei. Faz tempo que sou do ramo. Comecei novinho, escondido de meus pais, com a prosaica cuba-libre (aquilo que aqui nos EUA chamam de rum and coke e que nada mais é do que isto mesmo, rum misturado com coca-cola), que era uma espécie de reverência a Cuba à revolução cubana.

Minha geração inteira de filhos da ditadura militar, bebeu cuba-livre ferverosamente, sem sequer imaginar que um dia, Fidel Castro se tornaria tão tirano quanto Ernesto Geisel.

Beber é bom, admito sem precisar que apontem uma arma à cabeça e me levem para um porão de uma ditadura qualquer. E digo mais: compartilho daquela máxima de que mais vale um bêbado conhecido, do que um alcoólico anônimo.

Pode ser uma cachacinha, um rabo-de-galo, um uisquinho ou mesmo uma cervejota gelada. Mas há quem goste dela quente.

Lembro-me de que o compositor Gonzaguinha pedia a cerveja gelada e a deixava esquentando sobre o balcão. Só começava a beber, quando ela estava na temperatura do seu paladar, ou seja: quase um chá de cevada. Mas, gosto, repito, é igual pescoço…

Há também quem goste de champanhe. Tenho uma amiga que só bebe da marca Crystal e acho bonitinho ela gostar de champanhe dessa marca. Na minha cabeça pequena, pra tomar um porre de Crystal, o cidadão teria que hipotecar um imóvel. Mas ela fala de uma forma tão poética e convincente sobre o prazer da “coceguinha” gostosa das borbulhas efervescendo em seus lábios, do cheiro levemente adocicado subindo pelas narinas, que dá vontade de, realmente, hipotecar a casa e encarar uma Crystal bem de frente. Não que eu entenda dessa modalidade, posto que champanhe, bebi poucas na vida. Eu, que achava que champanhe era a cidra cereser, que serviam nas festas de juventude lá em São Raimundo. Não era. Não é.

Para acompanhar o ritual, os tira-gostos. Aliás, não deveria ter esse nome. Deveriam chamar-se “realça-gosto”, as moelas com molho de tomates (adequadas pra comer com pão murcho), o torresminho, a dobradinha, a linguicinha, a carne de sol com mandioca, o lambari frito e o fígado acebolado.

Chego junto quando o combustível da prosa é uma bebidinha. Mas não consigo beber sozinho. Acho absolutamente inverossímil beber sozinho. O cara que bebe sozinho, é como se dançasse sozinho. Não vejo a menor graça.

Ganhei a reputação de bom de copo e o presente que mais recebo é bebida. Tenho mais de 80 garrafas de cachaça – todas recebidas de presente de amigos e leitores – que vão desde a raríssima Havana (auspiciada pelo compositor Celso Adolfo… essa eu ainda abrirei numa situação especial, entre amigos, num terreiro embandeirado, com cheiro de flor de laranjeira no ar, solos de violão entorpecendo os ouvidos e estrelas no céu) às menos cotadas Amansa Corno, Sossega Leão, Arriba Saia e Providência. Tem gente campeoníssima em tomar “providências”.

O bom de biritar é a prosa que ela desenrola. A birita afrouxa a língua e libera os pensamentos mais reprimidos. Tem cara que quando bebe, torna-se uma grande autoridade em qualquer tema, vira filósofo. A bebida aguça a discussão sobre política, futebol ou mulher. Por mais santo que seja o caboclo, ele acaba entrando na eleição das melhores pernas da tv Globo, ou dando um pitaco sobre a boca insinuante de Angelina Jolie.

Dependendo do número de cervejas, Maradona foi melhor que Pelé, o fusca é que o carro e a camisa do São Paulo, é a mais bonita do Brasil. Só não pode é dizer que Fernando Collor foi um bom presidente, ou confessar que votou no Maluf pra prefeito. Pelo menos na minha roda, o caboclo é expulso sem direito à saideira.

E ainda ganha a fama de bebum chato.

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