De quando uma coisa boa é prejudicial à saúde

Existem os amigos bissextos, aqueles com que nos encontramos de tempos em tempos. Tenho alguns nessa categoria. São pessoas que vejo pouco, mas que quando vejo é sempre muito bom.

Na noite de sábado, estive com três sujeitos assim. Para completar a festa, o publicitário Antonio Martins se juntou a nós, e o que era para ser muito bom, ficou ainda melhor.

Três figuras especialíssimas, apaixonantes, divertidas, cheias de vida.

E foi uma farra tão boa, que três dias depois ainda reverbera em mim.

Encontrei-me com Cacau Brasil, Nando e Luciano Magno, três grandes músicos do Brasil, nos camarins do Paramount Theater, em Fort Lauderdale, onde Cacau e sua banda abririam o show de Toquinho.

Cacau é mineiro, da divisa de São Paulo e reside em Fortaleza. É ainda poeta e artista plástico. Não tinha como dar errado.

Nando e Luciano são de Recife. Riem e fazem rir profusamente. E possuem a alma de frevo. Leio isso nos olhos deles.

Correu tudo lindamente no show . Cacau foi aplaudidíssimo e deixou no ar aquela certeza de que em breve estará novamente por aqui, trazendo poesia, seu trabalho autoral de bom gosto e uma energia ímpar no palco.

Vendo-o atuar, lembrei-me de Alceu Valença e Elba Ramalho, ambos em início de carreira, dois dínamos, dois foguetes capazes de incendiar um oceano.

Após o show, abraços no camarim, e uma garrafa de Black Label do tamanho do carnaval.

Ganhei um burrinho feito de barro, um jerico autêntico feito de barro do Ceará, acompanhado de seu montador e duas cangalhas. Uma peça de artesanato de valor afetivo incalculável, e que já adorna o meu escritório, em Newark.

Não levei presentes para os visitantes.

Relapso, desatento, tive apenas a opaca presença para lhes ofertar. Da próxima vez me redimo, prometi-me.

Levei esse sorriso gasto pelo tempo, o enferrujado pâncreas, esse fígado baleado, um colesterol proibitivo até para um inocente ki-suco e caí na gandaia.

E foi querosene pra lá e pra cá, secamos o uísque e saímos pela noite, à procura de um bar que abrigasse muito mais que a nossa sede, a nossa saudade e o apetite voraz por afagos, delicados momentos que não se evaporam no éter das horas, mas se eternizam em nossos corações com as tintas definitivas do amor de irmãos nascidos de ventres diferentes.

Não foi nosso primeiro encontro. Nem será o último.

Da primeira vez, no ano passado, fomos apresentados em Newark e a conexão foi tão impactante, que cheguei em casa às seis da manhã, fato que não ocorria desde os tempos em que o arco-íris de minha vida ainda era, muito provavelmente, em preto e branco.

Se na primeira vez foi assim, tão marcante, eu não esperava outra coisa desse reencontro. Saí do bar direto para o aeroporto, onde tinha um vôo da Continental me esperando às inocentes 6:30 da manhã.

Tecemos poesias.

Alinhavamos canções e reminiscências que despertaram arrepios, corrupios, redemoinhos de emoção…

Arrancamos sorrisos falando das dificuldades dos tempos, reinventamos a roda e a vida transformando amargura em mel, separando jóia e joio com a cumplicidade dos que se querem bem. E já deixamos engatilhado um novo encontro.

Quando?

Espero que não tão cedo.

Amigos como Cacau, Nando e Luciano são tão bons, que deveriam vir acompanhados de um daqueles selos de advertência, emitidos pelo Ministério da Saúde, pois são “prejudiciais à saúde”.

Tenho certeza de que se morássemos perto não nos desgrudaríamos e é bem provável que um de nós, ou todos nós, estivéssemos hoje tomando umazinha na fila do transplante de órgãos.

Que o próximo encontro não aconteça logo.

Que me dêem um tempinho para curar a ressaca e desamassar a cara.

Mas que também não demore tanto assim. Afinal, já sinto aguda saudades desse trio da pesada.

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