Balança mais não cai

balanca Balança mais não caiO preço de moradia em Nova York ficou tão salgado, que muitos de seus habitantes resolveram cruzar o Rio Hudson e se estabelecer em cidades de New Jersey beneficiadas por transporte público, principalmente as linhas de metrô.

Foi assim que Hoboken e Jersey City foram invadidas por estudantes e profissionais liberais, que encontraram nos preços mais palatáveis de NJ uma saída inteligente e prática para o problema da moradia. Não demorou muito para que a procura se tornasse maior que a oferta, o valor dos aluguéis explodisse e Harrison e Newark aparecem no mapa como as soluções mais próximas.

Harrison se tornou uma nova cidade, com uma profusão de modernos condomínios e ares do novo Brooklin. Está linda.
Em Newark, o fenômeno já tomou as ruas do bairro leste, com visíveis mudanças na população e na estética.

O bairro vive um crescente processo de gentrificação. Atraídos pelo espírito de comunidade e proximidade a uma das melhores redes de transporte público do país, milhares de novos habitantes vão se instalando como posseiros com elevado poder de compra. Um apartamento cujo aluguel custava, há dez anos, 800 dólares, hoje não sai por menos de 1500 dólares por mês.

Newark foi fundada por pastores puritanos em 1666 e é uma das cidades mais antigas do país. Foi dividida em quatro bairros, inspirando-se nos pontos cardeais. O bairro leste ficou conhecido como Ironbound, devido a proximidade da linha do trem.

Na primeira metade do século passado o Ironbound abrigou as colonias italiana e polonesa que foram se solidificando, transformando o bairro em uma espécie de pedaço dos seus respectivos países, um caldeirão de diferentes influências.
A história se escreve passo a passo e, aos poucos, estes imigrantes foram cedendo espaço a outras nacionalidades. Hoje, são raros os comércios destas duas etnias nas ruas do ironbound. Foram substituídos pelos portugueses.

Com estes veio o cheiro de sardinha assada na brasa dos verões, o bacalhau, queijos e quitutes da rica culinária, fartamente disponibilizados em mercados e lojas espalhadas pelo bairro.

Grandes trabalhadores, eles foram se estabelecendo, comprando os imóveis pertencentes aos seus antecessores, tomando cada rua e transformando a Ferry Street em sua via principal.

Eu não poderia deixar de citar a presença os galegos, oriundos do norte da Espanha e que, apesar de em menor número, deram uma grande contribuição para o progresso do bairro.

Os brasileiros viriam depois Bem depois..

Atraídos pela facilidade da língua, fomos aportando em grande número no início dos anos oitenta. Em sua maioria, mineiros da região de Governador Valadares.

Não foi um início promissor.

Os lusitanos tinham bastante desconfiança com relação aos “primos” da América do Sul. O brasuca que chegava carregava o estigma do Zé Carioca, aquele personagem malandrão dos cartoons de Walt Disney. E isto dificultava as coisas. Tivemos que trabalhar duro para reverter o quadro.

Para alugar um apartamento, tínhamos que imitar o sotaque português para que nos aceitassem no imóvel. Como nem sempre “colava”, pedíamos a intervenção de algum amigo português infiltrado em nossa colônia, para que ele telefonasse em nosso nome, dizendo ser para ele o apartamento.

Com o tempo, fomos ganhando a confiança e parceria dos portugueses e, hoje, é seguro dizer que somos uma família que, finalmente, se reuniu.

Meus conterrâneos, tão logo conseguiam um apartamento, levavam para dentro dele uma número absurdo de ‘roommates”. Sei de caso de apartamentos de três quartos que abrigava 15 pessoas, espalhadas em colchonetes e usando o chão da sala e cozinha para as precárias noites de sono.

Um dos exemplos mais notórios é o do prédio do 75-67 da Jackson Street, que ficou conhecido como Balança Mais Não cai, uma alusão a um programa humorístico da tv brasileira que fez muito sucesso.

O Balança Mas Não Cai estreou em 1950 na Rádio Nacional e ali permaneceu até 1967, sendo ancorado por Wilton Franco, que apresentava os quadros humorísticos, supostamente passados nos apartamentos de um edifício residencial fictício, onde moravam as personagens. O sucesso do programa fez com que seu título se tornasse o apelido de um edifício superpopuloso no centro do Rio de Janeiro e de outro em Belo Horizonte. O nome atravessou as fronteiras e imortalizou o prédio da Jackson, rendendo histórias e polêmicas tão fantásticas (e absurdas) que dariam para escrever um livro.

Mas isto é assunto para um outro dia.

 

 

 

 

 

 

 

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