Cinco, esquinas, cinco ausências

cinco esq Cinco, esquinas, cinco ausênciasAlguns personagens de grande valor da comunidade brasileira em Newark já não estão entre nós, mas eu gostaria de poder render, hoje, uma tardia homenagem a cinco pessoas que pavimentaram a estrada, facilitando a vida dos que chegaram depois.

Paulo Oliveira trabalhava no Consulado Brasileiro, em Nova York, mas era a pessoa designada a servir de elo de ligação entre a comunidade e o Itamaraty.

Abnegado, visitava prisões, manicômios, consolava pessoas que haviam perdido algum membro da família, coordenava esforços para o translado e desconstruia as barreiras burocráticas do nosso governo.

Lutou bravamente contra um câncer e, mesmo no meio de sua batalha, continuou trabalhando em prol da comunidade. Sua perda foi muito sentida, mas muita coisa frutificou. O consulado itinerante, por exemplo é uma das sementes que ele plantou.

Jether Vianna veio para os Estados Unidos para administrar a Adams Travel, uma agência  de viagens e remessas que cumpriu um papel muito além daquele reservado a uma empresa criada para auferir lucros e crescer.

Sempre ao lado de sua esposa Ruth, Jether patrocinou muitos eventos de cultura, ajudando a proporcionar a vinda de alguns dos maiores shows de artistas brasileiros que aconteceram por aqui. Ele patrocinavam com passagens aéreas e, muitas vezes, com dinheiro, para que a produção pudesse arcar com os compromissos do evento.

Mas não se limitava à área cultural, encabeçando campanhas de arrecadação de fundos para translados de mortos e custeio de despesas hospitalares de conterrâneos necessitados.

Após sair da Adams Travel, Jether trabalhou durante algum tempo na BACC, antes de retornar ao Rio de Janeiro, onde viria a falecer.

Encontrei-me com Dona Ruth no Rio, em 2016, durante o lançamento de meu livro Papoulas de Kandahar, na Livraria da Travessa. Foi impossível abraçá-la, sem me lembrar daquele que sempre foi um pai para mim e tantos outros brasileiros que chegaram aqui em busca de uma oportunidade.

Outra figura marcante era o Seu Lima, um nordestino arretado, que trabalhava incansavelmente, quando já poderia estar usufruindo da aposentadoria.

Do alto dos seus setenta e poucos anos, atuava como uma espécie de despachante informal. Era ele que levava os documentos de todos nós para o consulado em Nova York, poupando-nos de enfrentar filas quilométricas e funcionários nem sempre de bom humor naquela repartição.

Seu Lima tinha um sorriso irresistível, contagiante e ganhava a todos com a energia de um garoto. Quando faleceu, houve uma grande comoção em toda a comunidade.

Marcus Mourão era músico, um dos componentes do Brazilian Energy, que foi, durante muito tempo, garantia de diversão e entretenimento para tantos trabalhadores cansados de suas jornadas, saudosos de casa.

Tímido, foi se soltando aos poucos até se tornar uma das pessoas mais queridas entre nós.

Era escutando o Brazilian Energy nos bares e restaurantes da cidade que mantínhamos uma conexão com o lugar que nos viu nascer. E o grupo se esforçava, tocando absolutamente de tudo,  para a nossa alegria.

“Toca aquela”, pedíamos.

E eles tocavam, com prazer.

Criei com o Marquinho uma amizade de irmão e eu o considerava uma das pessoas mais cultas que conheci por aqui.

Faleceu jovem, dormindo, vítima de um infarto fulminante. Fui um dos primeiros a vê-lo no leito da morte e não consegui me esquecer do seu semblante manso, como se estivesse descansando.

Sinto muitas saudades de todos eles e sei que fazem tremenda falta.

Ao contrário do que diz o velho bordão, algumas pessoas são, sim, insubstituíveis.

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