Da desconstrução do sono

roberto carneirim 300x107 Da desconstrução do sonoEu não durmo há quase uma semana.
É como se o sono tivesse desertado de mim e ido baixar em outra freguesia.
Ah, o sono, esta raridade, objeto do desejo sempre tão elusivo para mim.
Das muitas coisas da vida que não se encontra para vender em supermercado, este é um artigo de luxo que eu compraria às carradas só para ver se, um dia, eu ficaria em dia com ele.
Ou ele comigo, já nem sei.
O sono sempre me pareceu um anjo temperamental vestido com uma túnica de pele de ovo, brandindo um condão de isopor onde se lê: extremamente frágil.
Nunca fui bom de cama, confesso.
Já fiz sonoterapia, tratamento à base de chás e até simpatia.
Nada funcionou.
Sempre dormi mal e pobremente, como atestam estas olheiras escuras e os olhos eternamente encarnados, o que já me rendeu alcunhas como Zorro e Guaxinim.
O pior de todos foi “Colírio de Groselha”, que guardei a sete chaves até esta confissão.
Sei quase tudo de insônia e muito pouco da arte de dormir.
Uma noite de insônia é um banho lodoso nas águas de um pântano, eu posso garantir.
É uma rima de Augusto e uma rosa de Drácula.
Um filme de Hitchcock e uma carta da Receita Federal.
É a reeleição de Maluf e a perpetuação de Sarney.
É um lugar escuro e frio como o porão de um calabouço e a chibatada raivosa do carrasco de um navio negreiro.
É uma ameaça de um tsunami, o buraco de uma bala perdida e a mordida de um pitbull.
Nas noites de insônia os pesadelos descem como assombrações.
Os medos são coroados quando o sono e a coragem se escondem para namorar num lugar fora do corpo.
E a ausência deles é ferida aberta recebendo um punhado de sal.
É um desprezo de pai, uma mágoa de mãe.
Uma noite de insônia é – inteiramente – feita de brutal punição.
De sufocante angústia, de inquietude e pandemônio íntimo.
É um beijo do demônio, uma carícia de satanás.
É afogamento nas águas escuras do caos e é aquele saveiro-fantasma, que não encontrou o cais.
É o padecer de sede no meio do mar.
E é o perecer de fome, em qualquer lugar.
É recordar da caloi – aquela caloi -, que nunca chegou no natal.
É ser derrotado – outra vez – com a repetição da lembrança do gol adversário, ilegítimo, na decisão do campeonato.
Aquele gol que o juiz safado deu.
E é se lembrar que ela foi embora e que não voltará mais.
Nunca mais.
E é lembrar dela e pensar que você vai morrer de saudade e inanição.
E é morrer de verdade e não desejar reencarnação.
Nas noites de insônia, parece que Deus sai para tirar um cochilo e o demônio reina, onipresente, inaugurando este estranhíssimo carnaval feito de dores e outras alegorias.

Related posts

Comentários

Send this to a friend