De olho na placa

berto mercadim 300x199 De olho na placaRoberto Drummond me apresentou ao poeta Afonso Borges  no ‘século passado’, em Belo Horizonte. Foi empatia à primeira prosa e eu jamais imaginaria que aquele jovem inquieto viria a criar um dos mais importantes projetos culturais do Brasil.

O seu –  nosso – Sempre um Papo é motivo de orgulho não apenas para os mineiros, pois trata-se de uma das maiores referências quando o assunto é literatura no país.

Quase três décadas depois, continuamos nos frequentando e comungando de outras afinidades que vão além do gosto pela palavra. Entre elas está a afeição pelo Mercado Central da capital mineira, um dos cartões postais da cidade, ponto de encontro dos belorizontinos e reduto de turistas.

Aquele Mercado Central que já foi motivo de crônicas deste raso escriba em outras ocasiões.

Este, que já elogiou o doce do abacaxi vendido em suas galerias.

Que já teceu loas ao antológico fígado acebolado, tão delicioso e único, que deveria ser colocado na bandeira de Minas Gerais.

Que já rabiscou vias-sacras etílico-grastronomicas que começavam no Rei do Torresmo, continuavam no beco entre os bares Fortaleza e Governador Valadares, terminando no Bar da Loura ou no Casa Cheia.

Este, que é fã dos queijos e doces vendidos ali e que já comprou cachaça, compotas, frutas, verduras, legumes, artesanato e até carne de sol feita em Montes Claros.

Infelizmente, recentemente, este cronista começou a ver o mercado de uma forma menos bela. Por um motivo diferente do de Afonso – que já abordarei -, mas que vai desaguar no mesmo lugar.

Esta semana Afonso esteve por lá com a filha Manuela e quase bateu o carro diante de uma faixa de dez metros de comprimento, onde se lia:

“Favor efetuarem o pagamento antes de se dirigirem ao veículo. Não temos cobrança no terminal de saída”

– Onde está o erro? Aliás, onde estão, os erros? – perguntou o poeta.

Nas redes sociais, ele pediu a participação da população no sentido de preservação da língua portuguesa nas placas e faixas espalhadas pelo país. Afonso chegou a propor a criação de um ‘bunker’ de defesa contra erros da língua portuguesa em áreas públicas e privadas. Falou em patrulha ortográfica, que pode soar truculento e pretensioso, mas não é.

Sem querer dissertar sobre o massacre a que é submetida cotidianamente a língua portuguesa, atenho-me ao descontentamento que levou Afonso Borges a se manifestar publicamente contra o mercado.

E aproveito a dica para falar do meu,  aos olhos do mundo menos nobre que o dele.

É que eu quero protestar contra os preços abusivos que os comerciantes estão praticando no local.

Por mais cheio que estiver, um prato de comida a quilo contendo arroz, feijão, couve, farinha e carne de panela não deveria custar 48 reais.

Mas lá ele pode e absurdamente custa.

Assim como é absurdo o preço do estacionamento.

Dez reais por hora?

Não que eu seja mesquinho e não possa pagar, mas acho demasiado caro. Trata-se de um preço muito distante da realidade brasileira.

O absurdo dos absurdos, no entanto, dá expediente no banheiro masculino.

Cobram 0.50 centavos por cada vez que se se usa um ambiente sujo, fétido e que não possui tampa sobre os vasos sanitários ou instalação para pessoas com necessidades especiais. Dois dos cubiculos dispõem daqueles vasos antigos em que o usuário tem que se equilibrar, de cócoras, conforto zero, como faziam os romanos nos tempos de César.

Onde é que a queixa de Afonso Borges se encontra com a minha?

No detalhe, meus amigos.

A ganância está fazendo com que os comerciantes do Mercado Central de Belo Horizonte parem de atentar para o detalhe.

Detalhe nas placas. Detalhes nas faixas.

Detalhe nos menores detalhes.

E transformando aquele santuário da mineiridade em um lugar comum.

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