Mente fraca

ROBERTO Mente fracaO tempo vai passando, a chama da vida definhando e quase não percebemos as mudanças na nossa habilidade de executar as coisas.

A digestão de comida e informações fica lenta. Bem mais lenta.

Eu, que antes era capaz de dar prejuízo em uma churrascaria rodízio, agora passo um tempo enorme tentando dissolver um bife.

A tolerância ao álcool é outro tópico sensível.

Passei mais de 40 anos sem conhecer a ressaca. Hoje somos íntimos.

Quatro latinhas de Pilsner me fazem acordar no dia seguinte com um Saara na boca, além do indefectível gosto de cabo de guarda-chuva, que até então desconhecia.

E a cachola vira um abacate maduro, com o caroço balançando lá dentro.

O que mudou?

Mudou tudo.

Foram mais de cinco décadas abusando da boa vontade da genética.

Começou a cair-me os cabelos de onde deveria haver cabelo, e a nascer cabelo onde não deveria haver cabelo.

No outro dia, achei um fio enorme dentro de uma das orelhas.

A cabeça está virando uma pista de aeroporto e as sobrancelhas encolheram, dando ao rosto um aspecto caricato.

Acabamos nos tornando uma caricatura do que fomos um dia e ela, a caricatura, capricha em realçar as imperfeições.

Crescem as orelhas e o nariz, o último, ganhando o formato de uma coxinha de padaria.

O tempo é cruel com Narciso.

Envelhecer é rápido e dolorido.

Doem músculos, articulações e a autoestima.

Coisas que eu fazia com facilidade tornaram-se verdadeiros sacrifícios.

Amarrar os sapatos, por exemplo, há muito tem sido um esforço hercúleo.

Aconselhado por um amigo, adotei a técnica de colocar o pé sobre a cadeira antes de me curvar para dar o nó. De uns tempos para cá comecei a calçar tênis, daqueles que dispensam o uso de cadarços.

Redução de peso e prática de exercícios físicos foram recomendados pelo médico que me vê cada mais. Mas tenho gastado o tempo disponível cuidando da horta que planto todas as vezes que a primavera dá o ar de sua graça.

Quando termino de fazer uma capina entre os canteiros de hortaliças ou de revirar a terra com a enxada presenteada por meu saudoso pai, costumo recorrer a analgésicas e conhaques de procedência duvidosa.

Não resolvem, mas aliviam.

O que mais tem preocupado, no entanto, é a perda gradativa da memória.

Nunca sei onde larguei as chaves, esqueço celular e óculos em restaurantes e, não raro, deixo de comparecer a algum compromisso diluído dentro da memória enfraquecida.

As ocorrências se dão principalmente na parte da manhã, período do dia em que eu mais gosto de escrever.

Às vezes, quero construir uma frase, mas algumas palavras somem misteriosamente dentro de uma espécie de buraco negro que se abriu dentro de mim.

Por autocomiseração, achei uma saída poética, mudando o horário das escrevinhações para o meio da tarde.

Desde então eu professo que, como acontece com as pessoas, algumas palavras demoram mais tempo que as outras para acordar.

E assim vou levando, um descarrilho de cada vez.

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