O ardina

roberto lima nata O ardinaQuando cheguei a Newark, meu primeiro emprego foi em uma padaria da Ferry Street. O salário era de 140 dólares por semana, para fazer pastéis de nata, aquela maravilha lusitana que no Brasil é chamada de pastéis de Belém.

Aprendi rapidinho, graças à boa vontade de um madeirense que escreveu as medidas exatas de açúcar, leite e gema de ovos em um pedaço de papel de pão.

Como eu não tinha lugar para morar, dormi algumas noites em cima de sacos de trigo, escondido no porão do estabelecimento.

Quando fui descoberto, recebi um ultimato do proprietário, que deu três dias para arrumar um pouso, ou perderia o emprego.

No horário do almoço, fui buscar abrigo em uma livraria das Cinco Esquinas, onde eu passava os momentos de “break” folheando livros de Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Foi lá que conheci Sebastião Bento, dono de uma rádio que fazia transmissões via cabo telefônico.

Em dias de jogos do campeonato português, uma pequena multidão de patrícios se acotovelava em vários pontos da Ferry, escutando sair dos alto-falantes instalados nas marquises aquilo que chamavam de “relato da bola”.

A boa e velha transmissão radiofônica de uma partida de futebol ganhou para mim uma nova conotação.

Sebastião Bento se apiedou da minha história – contada pela dona da livraria – e me levou ao Campino’s, um restaurante de comida ibérica na Jabez Street. Estavam precisando de um lava-pratos.

Não consegui um quarto para dormir, mas arranjei outro emprego. Lá eu ganharia 220 semanais, trabalharia uma média de 13 horas por dia e folgaria às quintas-feiras.

Já no primeiro dia, fiz amizade com Franklin Ferreira, um português que vivera 17 anos no Brasil e tinha até carteirinha de sócio da Portuguesa de Desportos.

Franklyn me tomou pelo braço após o horário de maior movimento e me levou a uma senhora que alugava quartos na Wilson Avenue.

Por 17 dólares semanais eu havia, finalmente, achado um lugar para descansar os ossos e me lavar. Visivelmente prescrito, já fazia uma semana que o aprendiz de lava-prato não tomava banho.

O Campino’s tinha um salão de festas com capacidade para 600 pessoas e teria, já na minha “estreia”, um jantar-show com Roberto Leal, cantor que vivia em São Paulo e ganhava fortunas se apresentando nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Nunca vi tanta louça na vida, mas o esforço foi amenizado pelo som abafado que vinha do salão. A voz do cantor que eu tanto detestava quando o ouvia nas rádios brasileiras me arrepiava por inteiro.

Com saudade de casa, derramei algumas lágrimas envergonhadas, principalmente quando escutei a introdução de “Bate o Pé”, um de seus maiores sucessos. Admirador de Chico Buarque e Tom Jobim, confesso que me traí.

Nunca vou me esquecer da generosidade do Franklin, nem dos enormes desafios que tive que superar pela promessa de receber um green card.

Foram quatro anos de muita entrega e preconceito, tendo que ouvir todos os dias que o povo brasileiro é preguiçoso e eu era uma exceção. Tive que trabalhar dobrado para não perder a deferência.

Um dos episódios que mais deixaram marcas aconteceu no dia – bem no início – em que contei que escrevia crônicas para um jornal de minha cidade. Um dos cozinheiros sorriu maliciosamente e disse:

– Então, no Brasil, tu eras um ardina, não?

Baixei a cabeça sem conhecer o significado da palavra inédita, uma das tantas que no Brasil falamos de outra maneira.

Todos riram e começaram a me chamar de Ardina. O nome Roberto, com que fui registrado e batizado por meus pais, havia sido substituído sem o meu consentimento.

Naquela época não havia internet e, consequentemente, o Google. Tive que esperar até o dia da folga para comprar um dicionário, na livraria que continuava sendo refúgio.

Na primeira folheada descobri que ardina é aquele que, no Brasil, chamamos de jornaleiro. Uma tristeza enorme tomou conta de mim. Quando querem, as pessoas conseguem ser muito cruéis.

Em 1988 fundei o Brazilian Voice, o primeiro jornal brasileiro de New Jersey.

Eu escrevia todas as matérias e, após o jornal ser impresso, saía distribuindo pelas comunidades de quatro estados da Costa Leste. Livre da prisão da cozinha, eu era, finalmente, jornalista e jornaleiro. E aquilo me enchia de orgulho.

O jornal se firmou, ganhando importância para os brasileiros e respeito dos próprios portugueses. Tenho absoluta consciência de que minha história de imigrante teve um final feliz.

De vez em quando, esbarro pelas ruas com ex-colegas do Campino’s. Alguns já se aposentaram e outros continuam trabalhando em restaurantes, um dos ofícios mais duros que existem.

Agora me chamam pelo nome, devidamente acrescido do sobrenome: Roberto Lima.

Mas isso já não faz a menor diferença.

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