A palavra mais brasileira

roberto corda A palavra mais brasileiraQuem teve que sair de casa, colocou o pé na estrada e foi aportar, por terra, ar ou mar num país estrangeiro, tem em comum com seus pares certas dores. Essas dores doem em muitos lugares e pode, inicialmente, ser física.

Eu, por exemplo demorei a me acostumar com a peleja diante da máquina de lavar pratos ou, posteriormente, com o peso dos blocos de cimento do segundo trabalho.

Mas é no coração que a dor nos iguala. A saudade é essa palavra que arde e sufoca a níveis inimagináveis.

No outro dia, falei ao telefone com João, um amigo que veio morar nos Estados Unidos em 1984. Nesse meio tempo só foi ao Brasil em 1988.

Menos de dois anos após ter ido de mala e cuia para o Brasil, retornava aos Estados Unidos pela fronteira mexicana. Ele, que não sabe nadar, atravessou o Rio Bravo amarrado a uma boia.

Todo o dinheiro que juntou naquela primeira passagem por aqui, desapareceu como num passe de mágica. Na época, 45 mil dólares era muito dinheiro. Juntá-lo foi muito difícil.

João trabalhou de sol a sol como operário da construção civil. Nos finais de semana fazia bico em um restaurante.

Além de não ter tempo para gastar o salário, ganhava mais algum e se alimentava de graça. Era assim que raciocinava.

Com o dinheiro levantado comprou uma casa mobiliada em Valadares, um carro usado e montou um negócio.

Mas não deu certo, como não dá certo para 90% dos que não são do ramo e retornam ao Brasil acreditando que vão enriquecer abrindo um negócio.

Isto não é uma maldição.

É uma realidade cruel.

Afinal, como diria Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes.

Em nossa conversa do outro dia, João contou, amargurado, que ainda não conseguiu a sua legalização nos Estados Unidos. O Green Card, é um sonho que ele não conseguiu realizar. Mas do qual não abre mão.

– Este cartão verde é a minha carta de alforria! – desabafou.

No ano passado, ele finalmente conseguiu alguém que lhe assinasse um contrato de trabalho. Dentro de dois, três anos, poderá ir ao Brasil rever a família. Ansioso, ele conta os dias, os minutos e os segundos, mas o relógio parece conspirar contra, arrastando-se vagarosamente.

Em Minas Gerais João deixou a mulher e o filho, que nasceu alguns meses após terem voltado ao Brasil.

Eu poderia ter deixado meu moleque nascer americano. Pelo menos ele poderia ter vindo aqui me visitar nesse meio tempo…

O Filho de João hoje tem 20 anos de idade e não deve ter na memória o calor de um abraço do pai. Mas eles se veem e se falam quase todos os dias pela Internet.

Desde que voltou aos EUA pela segunda vez, João perdeu vários familiares e amigos.

Morreu-lhe um tio querido, o irmão mais velho envolveu-se em um acidente automobilístico que lhe custou os movimentos na perna direita. Está desempregado, e João dá uma força, mandando um dinheirinho de vez em quando.

A mãe de João também definhou muito. Anda doente nos últimos dois anos e o pai, um ferroviário que morre aos pouquinhos e sonha todas as noites com o apito de um trem, aposentou-se após 35 anos de serviço.

Muita coisa mudou.

A esposa já não é mais a moça vistosa com quem se casou numa igreja enfeitada de flores brancas, naquele dia ensolarado de maio. Mas ele ainda a ama muito. E ela a ele. Quando o filho não está por perto dela, fantasiam um reencontro cheio de intimidades picantes. E até já combinaram passar a noite do reencontro no mesmo motel que foram algumas vezes nos tempos de namorado.

Desde que veio para cá, João perdeu festas de aniversário da esposa e do filho, bem como de familiares e amigos queridos. Ele passa as noites de natal na casa de amigos imigrantes. O seu aniversário ele não comemora. Prefere passá-lo trabalhando, pois assim se distrai.

Ele tem saudade do chope com os amigos, de ir ao estádio ver seu time jogar e dos almoços de domingo, com a família toda reunida e as crianças correndo pela casa.

João, como muitos de nós, é um brasileiro que sofre de um mal que causa imensa dor.

E a dor da saudade, essa emoção acesa em nossas corações, é uma palavra que não figura em nenhum dicionário da língua inglesa.

Não acreditam? Podem verificar.

Saudade não consta do dicionário na língua de Sheakspeare.

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