Verissimos

lfv ROBERTO VerissimosQuando eu comecei a escrever crônicas queria ser dois caras. Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo foram grandes influências na minha escrita.

Li absolutamente tudo deles na gênese das coisas. Quis beber na fonte do lirismo de um e do senso de humor do outro. Era uma coisa premeditada, aquela de querer me parecer com eles. Eu falhei, obviamente. Só existe um Verissimo e um Rubem Braga.

Tive a oportunidade de conhecer Verissimo em 2011. Ele veio aos Estados Unidos receber um prêmio em Fort Lauderdale e eu tive a incumbência de levá-lo de um lado para o outro, fui seu chofer. Dele e de sua esposa, uma mulher encantadora e de olhos muito bonitos.

Quem lê Verissimo pensa num sujeito extrovertido, contador de causos, daqueles que gostam de fazer uso da palavra. Não é bem assim. Aliás, não é nada assim.

O criador do Analista de Bagé e da Velhinha de Taubaté é uma das pessoas mais tímidas que vi na vida. Calado, atento, protegido pelos inconfundíveis óculos de grau, é homem de pouca prosa.

Ele interage, claro, quando não há outro jeito. Seus comentários são curtos e absolutamente normais, caindo uma pérola aqui e ali. É bom estar atento.

Foram três dias muito especiais em que aprendi bastante. Como no momento em que perguntei sobre o que lhe inspirava a escrever e ele respondeu:

– O deadline. Nada me inspira mais do que um editor me cobrando o texto para ontem.

Naquele momento era o escritor que eu conhecia tão bem. Mal terminou a frase, voltou a ser o sujeito tímido que descrevi.

Guardei alguns instantes da breve convivência no relicário em que mantenho as coisas mais preciosas da vida. Situações como esta que vou relatar.
Na manhã que antecedeu à entrega do prêmio, tive que buscar o casal no hotel em que estavam hospedados. Teria que levá-los do ponto A ao ponto B.

Era um destes hotéis modernos, de saguão barulhento e frente para o mar.

Quando cheguei, eles aguardavam ao lado do elevador. Eu não estava atrasado, mas eles já estavam lá.
Cumprimentamo-nos e ele perguntou se havia lugar no carro para mais um. Havia, claro. Mas achei estranho ter aparecido outro passageiro, já que no dia anterior éramos apenas nós três e ninguém falara em outra pessoa.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da porta do elevador abrindo e saindo de lá uma senhora americana, na casa dos setenta anos, que veio em nossa direção.
Chegou dando bom dia ao casal e, em seguida, dirigiu-se a mim, falando em português. Não era norte-americana aquela velhinha simpática e de sorriso largo. Tinha um sotaque gaúcho e uma voz doce.
Verissimo tomou a palavra brevemente e nos apresentou.

– Roberto, eu quero lhe apresentar minha irmã. Ela mora aqui nos Estados há muitos anos.

– Sua irmã – perguntei?

– Sim, a Clarissa.

Olhei para ela, sorri e a abracei. Fiquei ali, agarrado a ela por alguns intermináveis segundos, enquanto ela provavelmente se perguntava que abraço demorado era aquele.

Um abraço profundo, demasiado longo, injustificado.

No instante em que a envolvi em meus braços, eu não abraçava apenas uma estranha que acabara de me ser apresentada.

Eu abraçava a leitura obrigatória dos primeiros anos de ginásio, materializada agora, tanto tempo depois, naquela figura tão simpática. Demorei a largar a mulher.

Eu a abraçava e abraçava a menina de 13 anos, que foi morar na pensão da tia Eufrasina, enquanto estudava em Porto Alegre.
Abraçava milongas e milongueiros e suas roupas de lã.
Abraçava o Paralelo Trinta.
Devo ter abraçado uns três minuanos e as águas do Rio Guaíba.

E abraçava Dona Zina e a infiel Ondina com o seu marido Barata.
Abraçava o deficiente físico Tonico e sua mãe viúva.
Abraçava Levinsky, um judeu comunista e seus discursos políticos; abraçava a namoradeira Dudu e o músico Amaro, um desiludido tomado de amores por Clarissa.

Muito mais do que estar abraçando a personagem de um dos livros que mais marcaram o meu período de descoberta da literatura, eu abraçava uma cidade e um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos.

Abraçava a filha de Érico, a irmã de Luis Fernando, e dela não me desgrudava.
Quase tivemos que ser apartados em meio ao constrangimento que criei.

Foi a primeira vez na vida em que abracei uma pessoa, quando na verdade abraçava um livro.

Muito mais que um livro, eu abraçava um clássico.

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