Santo de casa não faz milagre

bananas 1024x599 Santo de casa não faz milagreRomero Brito é um grande sucesso fora do Brasil. Sua obra está em aeroportos e paredes ilustres de todo o mundo. Em Miami, seus trabalhos acabaram se incorporando à paisagem quase caribenha do lugar.

Seus traços estão em monumentos e praças públicas, laterais de ônibus e letreiros luminosos. Virou um patrimônio local, como os flamingos dos Everglades e as palmeiras das quentes alamedas floridianas.

No Brasil, o pernambucano é criticado com ferocidade.

Seu trabalho é citado em piadas de mau gosto, especialmente na comunidade artística e nas rodas de intelectuais.

O argumento é que ele se repete e sua obra não instiga o pensamento, é irreflexivo.

Ao que tudo indica, ele não parece interessado no discurso artístico, nos problemas da contemporaneidade, na “problematização”. Romero Brito é uma máquina de altíssima produção em franco funcionamento.

Alheio a tudo isto e aparentemente sem alimentar mágoas pelo descaso em seu próprio país, o artista se firmou no mercado internacional pelo que faz, e não pelo que diz fazer.

Não sou crítico de arte, mas acho que comparar sua obra à de Andy Warhol, como já fizeram alguns, que por isso foram metralhados em praça pública, não me soa como uma heresia, como me querem fazer crer. A veia pop de ambos e a disponibilização da obra para quem não tem dinheiro não me deixam mentir. Que seja este o caso, então, ainda que os entendidos os tratem como designers de produtos e não como artistas plásticos.

Romero Britto não precisa de defensores.  E nao é isto o que faço aqui.

Uso-o como exemplo de brasileiro que se deu bem fora do Brasil, mas que não conta com o apreço de sua própria gente. E ele não está sozinho.

Querem outro exemplo?

O escritor Paulo Coelho, o segundo autor que mais vende livros no mundo.

Odiá-lo é o caminho mais fácil para garantir o status intelectual de quem o critica nas rodinhas mais descoladas.

Não meço o valor de sua obra. Não a conheço e careço de vocação crítica. O fato é que este carioca já vendeu 210 milhões de exemplares em todo o planeta, o que em muitos países o elevaria à condição de herói nacional.

Dizem que seu incrível sucesso é mais resultado de marketing, do que de uma boa pena. Falam de um conteúdo inócuo e oportunista, plantando falácias num cenário em que as pessoas buscam alternativas para a ausência de saídas epiritualizadas e até da omissão de Deus.

Por mais que ter sido empossado na cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras soe como um prêmio de consolação, ele tem mais detratores do que fãs no Brasil.

Dizem que quem o lê jamais leria Schopenhauer ou Sartre. É natural. O Brasil anda mais para Wesley Safadão do que para Tom Jobim. E estes são os nossos tempos.

Publicado em  mais de 150 países e traduzido para 66 línguas, o ex-parceiro de Raul Seixas em tantas canções não parece preocupado com isso. E tem absoluta razão.

Outro caso recente de brasileiro de sucesso internacional que não é unanimidade em casa é o do jogador Neymar Jr. É incrível o tanto que ele é criticado.

Trata-se de um jovem (apenas 25 anos) que venceu quase tudo o que disputou, tendo inclusive ajudado o país a conquistar um inédito ouro olímpico.

O jogador do PSG tem contra si a vida de farras fora dos gramados, a fama de baladeiro, mas dentro das quatro linhas é de uma competência e criatividade únicas.  Não é à toa que é o jogador mais caro do mundo. Eu não gostaria que ele namorasse uma filha minha, é verdade, mas vejo nele um craque que ainda tem muito por onde crescer.

O gostar ou não gostar de uma personalidade é direito de cada um. Isso eu consigo compreender.

O que não é bacana é o fato de se olhar com uma lente mais severa para os nossos, como se o sucesso internacional fosse um benefício reservado apenas aos outros.

Numa absurda inversão de valores, muitos brasileiros dão ao trio acima citado o tratamento que deveriam dar à grande maioria dos políticos em atividade no país.

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