Saudades do Seu Lima

anju 1024x768 Saudades do Seu LimaNossas comunidades possuem grandes brasileiros que, no ofício de viver, saem-se maiores e melhores que o encomendado. Nossa comunidade mudou muito nos últimos tempos, mas ficou a saudade de um grande brasileiro.

O Seu Lima, que os brasileiros de Newark aprenderam a amar e respeitar era uma dessas almas raras, sujeito cheio de predicados, que contagiava a todos com sua alegria e infindável energia.

Ele foi um dos pioneiros a fazer o que chamam hoje de “serviço de consulado”.

Pegava documentos, procurações, requisições de passaporte, autorizações de viagem e os levava ao consulado em Nova York, facilitando a vida de todos nós, que vivemos desse lado do Rio Hudson.

Ele desembolava tudo, enquanto o titular do documento aguardava no conforto do lar.

Conhecia o ofício, sabia de cor os pré-requisitos para a obtenção de documentos brasileiros, e o fazia de forma legítima, honesta, absolutamente legal.

No consulado, fez-se querido por todos. Era paparicado pelos funcionários da repartição, que reconheciam na sua humildade e na vontade de servir, virtudes em vias de extinção.

Num ambiente marcado pela competitividade, pela inveja e pela promiscuidade, que são muitas vezes as comunidades imigrantes, Seu Lima sempre foi uma exceção.

Era amado por adultos e crianças, levava sempre um sorriso (como esquecer o sorriso de Seu Lima?) e uma palavra amiga a todos os lugares por onde passava.

Não sei de uma única porta que lhe tenha sido fechada, durante todos os anos de convívio.

Sei que ele era do Ceará, que morara no Rio antes de emigrar e que, sempre que podia, estava nos eventos sociais de nossa colônia, acompanhado de sua inseparável esposa.

Certo dia, telefonei-lhe para pedir que tratasse da renovação de meu passaporte e aproveitei para convidá-lo para a festa de 20 anos do Brazilian Voice. Encontrei-o acabrunhado do outro lado da linha, a voz diferente do normal.

Não escutei o calor de antanho. Vi que algo ali não estava bem.

Seu Lima agradeceu o convite da festa, mas declinou. Disse que não se sentia muito bem. E que esse mesmo motivo, o levava a não aceitar a responsabilidade de cuidar da minha documentação.

Despedi-me dele, sem insistir e sem imaginar que aquele teria sido o nosso último contato.

Numa noite de sexta-feira, recebi um telefonema dando contas de que ele havia ‘pedido a conta’ e subido, para seu encontro definitivo com Deus. Fiquei reflexivo, durante horas, pensando nele, no seu legado, e na lacuna impreenchível que deixara.

A morte de Seu Lima me faz pensar numa vontade antiga que tenho, já há algum tempo, de criarmos uma forma de homenagear, em vida, esses grandes brasileiros, que vivem anônimos para o Itamaraty, mas que são legítimos embaixadores de nosso país em terras estrangeiras.

Nosso consulado deveria criar uma espécie de comenda para estes grandes cidadãos, que quase nunca são reconhecidos por sua contribuição na melhoria da nossa sociedade.

Pela honestidade, sua atitude sempre positiva e o bom exemplo deixado para a próxima geração de imigrantes brasileiros, Eliomar Lima teria merecido, em vida, esse momento de alegria no reconhecimento por parte de nossas autoridades e de todos nós.

Algumas pessoas deixam sua marca ao fazer grandes coisas. Seu Lima deixou a sua fazendo coisas que poderiam ser consideradas pequenas, mas que o tornaram grandioso.

Que a terra esteja lhe sendo leve, Seu Lima.

Minha admiração e homenagem são para sempre.

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