Só quero o seu bem, meu menino vadio

123 Só quero o seu bem, meu menino vadioMeu filho,
Eu só quero o seu bem. No sentido de que você se dê bem, veja bem… E se dar bem, mas bem mesmo nesta vida, Juninho, é amealhar muitos bens. Seja lá de que jeito for. Entendeu bem?

Se um conselho deste velho e experiente pai valer alguma coisa para você, que seja este: nunca se furte a roubar. Siga meu exemplo, jamais se negue ao abnegado exercício da contravenção. Mesmo que isso não traga benefício algum à sociedade, pode ser que reste o consolo de enriquecer a você. Roube mesmo, menino, roube até não dar conta de carregar aquilo que não é seu. Até vergar as costas de tanto lingote de ouro desviado, de tanta usina hidrelétrica e estádio superfaturado, até ficar com as mãos em carne viva de tanto contar dinheiro dos esquemas de propina. Até grana deixar de ser solução para passar a ser problema – tamanho o montante que você terá juntado, sem saber o que fazer com ela. Ô coisa boa, quando chega nessa fase…

Não deixe sobrar nadica de nada, aproprie-se de tudo que puder ou que estiver dando sopa. Não poupe nem quadro de Portinari, nem anjo de Aleijadinho, nem crucifixo de parede, nem talher de faqueiro. Afana mesmo, sem dó nem piedade, sem drama de consciência. Na calada ou nas fuças do mordomo. Se não surrupiar, vem outro e leva, creia em mim.

O caldo entornou? Papai aqui não há de faltar. Entregue-se ao desfalque como se o dia de hoje fosse o último da sua vida, surrupie descaradamente, tendo na cachola aquele mandamento que aprendi com seu avô e transmiti para você: “Farinha é pouca? Meu pirão primeiro!”.

Vai sem medo, cria minha. Faça o que der na telha, se for em proveito próprio. O máximo que pode acontecer é te pegarem com a boca na botija, em ato tão flagrante que justifique a denúncia. Ainda assim, keep calm. Você é meu filho. Caso o caso vá pra frente, da instância suprema não passa. E a instância suprema, convenhamos… se aquele outro precisa de um cabo e um soldado, eu te asseguro: nem disso a gente vai precisar!

A sabedoria mais preciosa é aquela que surge dos nossos próprios erros. Dá para contar nos dedos quem se arrumou na vida sem trapaça ou uma rasteira bem passada sempre que preciso, estimado filhote. Dá pra contar nos dedos da mão esquerda, para falar a verdade. E olha que eu tenho menos dedos nessa mão, né?…
Com amor,

Papai
Esta é uma obra de ficção(?)

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