Octacílio e o Jazz

Octacílio Mattos foi o primeiro intelectual que conheci. Natural de Montes Claros, chegou a Itaobim para passear, e fez dali a sua terra. Artista plástico, radialista, poeta, ator e profundo conhecedor do ser humano, Octacílio vivia adiantado no tempo. Entre ele e as pessoas mais inteligentes de Itaobim, havia um século de distância. Chegou lá como Octacílio Pintor, criou logomarcas para o Maísa, Laticínio e outras pequenas casas comerciais, além de pintar painéis e letreiros em muitas cidades da região. As melhores festas que já aconteceram em Itaobim, ele as produziu: Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Sete de Setembro, Natal e Reveillon. Octacílio fazia, em cada uma daquelas festas, uma decoração especial no Clube “Kancela 1.030”, e tinha guardado na manga um poema especial para cada oportunidade. No meio da festa, as luzes se apagavam e, iluminado por um foco, aparecia o ator declamando Fernando Pessoa, Fernando Namora, Maiakovsky, Bertolt Brecht, Vinícius, Castro Alves, Drummond, ou mil outros poetas russos, gregos, ingleses ou nacionais. Textos escolhidos a dedo e coração, que na sua força de interpretação sempre levava a platéia ao choro compulsivo. Era um grande artista. Além disto, entre as muitas cervejas diárias, ainda lhe sobrava tempo para ser bom jogador de sinuca e técnico do time de futebol da cidade.

Desapontado com a falta de espaço para a arte em Itaobim, Octacílio mudou-se para Araçuaí, onde morreu de cirrose hepática, aos 45 anos, em julho de 1978.

Aprendi muito com aquela alma irrequieta de artista e boêmio. Além dos muitos quadros deixou um livro manuscrito, “Folhas Soltas”, de poemas e crônicas, que eu tive a oportunidade de ler. O livro desapareceu no quarto de pensão em Araçuaí, sua última residência.

Desculpem a pesada introdução, mas eu queria apresentar o gênio chamado Octacílio Mattos, personagem do causo de hoje.

Ele estava no “Redond’s Bar”, em Itaobim, tomando a sua cerveja, quando entra um baixinho, bem vestido, que lhe é apresentado como sendo um representante comercial de uma empresa multinacional, um laboratório, se não me engano. Lembro-me que ele ficou puto com a forma de ser apresentado: “esse é o maior pintor de Itaobim”. Octacílio, que tinha obras premiadas em outros países, era o único pintor em Itaobim.

O baixinho, querendo se mostrar muito inteligente, começa a provocar o mestre Tasca, num longo papo sobre os caminhos da música norte-americana. Xodó, um grande boêmio e contador de causos, encostado no balcão com um copo de “barrigudinho” (conhaque Presidente) na mão, ouvia toda a prosa. Sabia que a discussão acirrada girava em torno de música, mas era tudo o que sabia.

O baixinho apelou e ofendeu grosseiramente o Octacílio. O mestre se levanta, já bêbado, e dispara: “Não vou perder o meu tempo com um imbecil como você. Você não sabe distinguir um rock de uma guarânia”. Uma resposta atrevida do baixinho e ele completa aos berros: “O que é jazz? O que é dixieland? O que é free-jazz? Você é um burro”.

Outra apelação do baixinho e Octacílio vira-se para a platéia que permanece calada, nem um pio. Olhando para o seu colega de boemia, o Xodó, Octacílio desabafa: “Tô aqui sentado, vem esse imbecil, vindo não sei de onde, para me ofender”. E ainda olhando para Xodó, pergunta aos berros: “Diga, o que é jazz? O que é free-jazz? Xodó achando que as perguntas foram dirigidas a ele, responde com outra pergunta, encarando o mestre Octacílio: “É o tal do Carimbó?”

Octacílio jogou o copo no chão e saiu chorando do Redond’s Bar.

Related posts

Comentários

Send this to a friend