O Bom Cobrador

Em 1968 participei pela primeira vez de um festival de música. De lá pra cá, já participei de mais de uma centena de festivais, como concorrente, organizador, jurado ou apresentador.

Muitos artistas que hoje brilham no céu da música popular brasileira, ganharam essa luz graças à energia dos festivais, que foram e continuam sendo um importante espaço para a revelação de novos talentos. Até o ano de 1986 Minas Gerais era o Estado que realizava o maior número de festivais no Brasil: eram mais de cem por ano.

Em 1987, graças à falta de apoio dos órgãos governamentais ligados à cultura, esse número caiu bastante e, hoje, apesar do esforço dos promotores desses eventos, não temos mais de trintas festivais em Minas.

Falei dos festivais porque eu voltava de um deles, o de São José do Rio Pardo (SP), um dos maiores do Brasil, quando ouvi esse caso que vou lhes contar. Voltando do festival onde fui jurado, eu e Armando Maneira paramos numa cidade do sul de Minas, onde um gaiato aprontou uma brincadeira usando o letreiro do cinema. Estava em cartaz o filme “Cobra”, de Silvéster Stallone, e no letreiro, logo acima do nome do filme afixaram uma faixa com os dizeres: “Pode vender fiado STALONE COBRA”.

Foi o bastante para a prosa girar em torno da vida dura de cobrador: visita ao devedor, fugindo do cachorro e do péssimo humor dos parentes do visitado e ouvindo as tradicionais desculpas: “pai mandou falar que está viajando”; “Sinto muito mas o patrão não está e a patroa está adoentada”; “Meu marido passa lá amanhã e acerta com o senhor”; “Infelizmente Dr. Fulano quebrou o braço, não podendo assinar cheques e está sem dinheiro agora”; “Claro que vou pagar, mas é que recebi um cheque sem fundo”; “Estou esperando uma grana amanhã e, depois de amanhã lhe pago, sem falta” e coisas que tais. Tem também o cobrador duro, aquele que chega cobrando em altos brados para a vizinhança toda ouvir o papo. Tem o cobrador diplomata, que recebe todas as dívidas sem ofender o devedor. Conheço um assim, o meu conterrâneo Zé Cardoso, o popular Zé Largo, que há vinte anos ganha a vida em Belo Horizonte, como cobrador.

Mas bom mesmo, me disse Armando, é o seu conterrâneo Juanito Cobrador. Juanito foi procurado pelo Rachid que lhe pediu: “Pelo amor de Deus, recebe para mim esse dinheiro com o Dr. Fulano. Ele é um péssimo pagador, tá me devendo há quatro meses e não paga. Recebe lá para mim que lhe dou trinta por cento”.

Já se sentindo o dono dos 30%, Juanito pegou a promissória, aumentou juros e correção monetária, e partiu para a luta. Quase um mês depois, Rachid encontra o Juanito e lhe pergunta: “E aí rapaz, que cobrador é você? Cadê meu dinheiro?”

Juanito, encarando Rachid, respondeu:

“Uai sô, minha parte eu já recebi, mas a sua tá dificil demais. Bem que você me falou, o homem é muito ruim de paga”.

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