O Susto de Serra Grande em Itu

tadeu violeiro1 O Susto de Serra Grande em ItuO sapo foi para o céu dentro de uma viola. Renato Andrade, o maior violeiro do mundo, que já tocou em mais de trinta países, resolveu copiar o sapo, e fez da viola caipira o seu veiculo para a viagem ao céu.
Foi nas cordas da viola que ele dedilhou suas preces, que comoveram o peito, que agradaram os ouvidos, e que deixaram em todos nós, míseros viventes, a vontade de que a música nunca chegasse ao fim. Foi com a viola que ele derrotou o capeta.
Bom, aí é outra historia. Depois eu conto. Agora eu vou contar uma das historias que o Renato Andrade me contou.
Ele e o seu fiel escudeiro, o violonista Serra Grande, foram fazer um show em Itu, cidade famosa pela sua “mania de grandeza”. O show seria realizado num sábado, eles chegaram à cidade na noite de sexta-feira.
O hotel onde se hospedaram, vendia bem a imagem de Itu: o gerente tinha dois metros e vinte de altura, o recepcionista não ficava atrás, com quase dois metros, e na decoração, alguns objetos grandes como a fama da cidade.
Enquanto se dirigiam ao apartamento, Renato brincou com o Serra Grande:
“É Serra, você que tá com problema de garganta, não poder ir ao médico aqui. Vai que ele te receita um supositório”.
No restaurante do hotel, após o jantar, Renato e Serra Grande ficaram batendo papo com o gerente e o recepcionista, falando de música, da expectativa do show “Viola Fantástica”, que seria realizado no dia seguinte, e ouvindo as historias sobre a “grandiosidade de Itú”.
Renato não bebe. Os outros três, regavam o papo com cerveja.
Depois de algumas cervejas, o Carlos, gerente do hotel, resolveu ir ao sanitário. Abriu uma grande porta de vidro e saiu para uma área sem iluminação.
Renato e Serra não haviam passado por aquela porta que dava acesso à piscina. Ou melhor, nem sabiam da existência da piscina no hotel.
A piscina estava sendo preparada para o sábado. Tudo à base de máquinas.
No fundo da piscina, um aspirador, sustentando por quatro bóias de isopor, passava de um lado para outro, sugando as impurezas.
Antes do retorno do gerente, o Serra Grande levantou-se para ir ao sanitário, ainda encabulado com as coisas de Itú.
Passava das vinte e três horas quando ele saiu pela mesma porta que o gerente havia saído.
Alguns passos, um grito e o barulho da queda na piscina.
Ao cair, com a boca aberta, Serra Grande bebeu bem uns dois goles daquela água clorada.
Tentou ficar de pé, escorregou, bateu o rosto numa das grandes bóias de isopor.
Deu um passo, tropeçou no aspirador e esbarrou numa outra bóia.
Mesmo tendo perdido o óculos na queda, Serra Grande viu, graças à claridade da porta aberta do sanitário, o gerente grandalhão se aproximar.
Apavorado lá dentro daquela água, lembrando que estava em Itú, Serra Grande gritou para o gerente:
“Oh Carlos, pelo amor de Deus, num dá descarga não. Num dá descarga não, que eu tô aqui dentro.”

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