Peru e o bebedouro

tadeu bedouro 300x225 Peru e o bebedouroO Vale do Jequitinhonha continua, carente de uma maior organização política, a exportar seus filhos para estudar/trabalhar em outras regiões desse mundão de meu Deus. Do penúltimo para o último censo a população diminuiu, mas segundo o filósofo Castilin, um dia esse povo todo vai voltar, dos quatro cantos do mundo, para criar a “FÊJILÊ”, Frente Jequitinhonhense de Libertação, que fará um Festivale em Belmonte (BA) como estratégia para ocupar a parte baiana do Vale, originando daí a República Independente do Jequitinhonha. Enquanto esse dia não chega, vou falar de outras repúblicas jequitinhonhenses.
Quando um jovem do Vale se desloca para continuar os estudos em Belo Horizonte, se não tem parentes na Capital, já traz no bolso o endereço de uma pensão ou república onde moram seus conterrâneos. Aí, além do choque da grande metrópole, é obrigado a agüentar a gozação dos conterrâneos, até se adaptar a nova vida. Gozação que atinge as raias da perversidade, como os antigos trotes das universidades brasileiras. O “Estado de Minas” há muitos anos, estampou nas páginas policiais o caso de um jovem recém-chegado de Medina, que não suportando a gozação dos conterrâneos, para se vingar, colocou fogo no apartamento.
Nos anos 70 a pensão da Rua Januária, 318, bairro Floresta, era a moradia dos itaobinhenses. Ali, o jovem Wilson Batista, o PERU, que assassinava a língua pátria, ou melhor, que falava o mais autêntico Jequitinhonhês, foi por alguns anos o alvo das brincadeiras. Mas resistia sorrindo, nunca perdeu as estribeiras. Peru, amante de um joguinho de baralho, fez do sorriso a sua marca registrada. Ele já faleceu, mas deixou a imagem do sorriso aberto, arma com que enfrentava as adversidades da vida. Grande companheiro. Lembro-me do seu batismo na pensão: a pedido do veterano Antonio Joaquim, ele entrou em uma papelaria para comprar “envelope redondo para enviar carta circular”. Outra grande estória do Peru aconteceu dentro do Cine Metrópole, que hoje não existe mais.
Saímos, Peru, Antonio Joaquim, Jansen, Zé Lobo e eu, para assistir “O Exorcista”, em cartaz no Cine Metrópole. Na sala de espera do cinema, o Peru se aproximou do bebedouro, apertou vários botões e… nada de água. Atrás dele, o Jansen percebeu o fato, olhou para mim e apontou a vítima. O Jansen aproximou a boca do bebedouro e, para o Peru perceber, falou “sobe água” e bebeu até se fartar. Peru não sabia que o dispositivo para funcionar o bebedouro era um pequeno pedal quase escondido embaixo do mesmo. Sorriu meio desconfiado quando me viu repetir o gesto do Jansen: eu também autorizei a água que subisse, apertei o pedal e matei a minha sede. O Antonio Joaquim explica: “Aqui num é o cinema de Oldack não. (O cinema de Oldack, ou Cine Teatro Duarte, era uma referência cultural da nossa Itaobim). Aqui nesse cinema o bebedouro é na base do computador”.
Afastamos do bebedouro e fingimos olhar alguns cartazes, mas sem perder de vista o caboclinho encabulado com as maravilhas da cidade grande, que se aproximou do bebedouro, abaixou a cabeça e sussurrou para a máquina: “sob’água, sob’água, sob’água”. Explosão de risos e ele, rindo mais que nós, volta-se para o Zé Lobo: “Deixa de ser besta, José, onde é que aperta esse trem?”

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