A poeira do cardume

Tem gente que pensa que os mineirinhos da roça são todos iguais, no comportamento. Sabe de nada. Tem mineirim de tuconté jeito.

Tem o de pouca conversa. Assim:

– Tá é choveno, hem?

– Finimmmmmm…

Tem o literal, convencional feito o Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queirós em O primo Basílio. A pessoa sente que vai espirrar, esfrega o nariz, olha pro sol, e nada.

– Que raiva, sô. Que que é bom pra espirrar?

E ele, candidamente:

– Nariz.

Também tem aquele tipo simplório sem qualquer verniz cultural ou noção de limite. Ele chega cedinho, antes de o banco abrir, pra ser atendido logo. O sol já vai bem alto. Há uma única pessoa na fila, uma senhora já bem idosa e obesa, suada. E ele, doido pra caçá u’a prosa, se dirige à macróbia:

– Sora tá na fila, Dona?

– Tô, né?

– Crama não, boba. É bão pra esmagrecê…

Mas esses do causo abaixo, que o meu amigo Conde ouviu do violeiro Levi Ramiro e me repassou, são especiais, pela rabugice e pela contação de vantagem. E eu, de minha parte, salpico aqui e ali uns floreados, aumentando uns pontos no conto, conforme é de lei.

Ao mineirês, pois:

Caiô de três mineirins que num se conhecia topá na beirada dum ri adonde ês tinha ido pescá pela primeira vez. Tava ali, os três, varinha de bambu na mão, embornal , latinha de minhoca, chapéu de paia, pitano um fumim de rolo, meiota de pinga na gibeira. Tava dano até uns peixim bão.

De repente, o mineirim da ponta de cima chiou:

– Ô rizim ruim de peixe, sô.

Os outro espiaro de banda. E ele emendou:

– No ri que passa na minha terra, sô, é até difice de pescá. Quando cê isca o anzol na beira d’água, a peixarada cumeça a pular, é de dois metro, três metro, só bitelo. Procê acertá a isca na boca daquele maió que cê qué pegá é u’a peleja. Dá até jeriza na gente, tê que devorvê peixe de metro e mei, dois metro.

O mineirim do mei pensou um tiquim e lascou:

– É pouco peixe. Na minha terra, cê tem que iscá o anzol descosta pro ri, senão os peixe pula tudo cá fora, nu’a gulodice medonha, quereno tomá a isca docê. Já cheguei em casa com a butina toda roída de peixe. Até u’a beliscada num bago eu já tomei.

Pois o terceiro mineirim num demorou a rotá a vantage dele:

– É pouco peixe. No ri da minha terra, seus menino, tem tanto peixe, tanto peixe, mas tanto peixe, que ês já expursô até a água. Cê chega na beira do barranco pra pescá, quando vem o cardume levanta é um poeirão. Quem num conhece pensa inté que é uá boiada que lenvém…

É pouco peixe ou tá bão, cara leitora e caro leitor?

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