Gente também é parente

Bim-blão. Noinha chega sem avisar. Desatinaldo abre a porta e ela logo dispara a contar um sonho recorrente que a tem deixado mal.

Noinha relata que sonha com cachorros que carregam sacolinhas e puxam, pela coleira, pessoas peladas que caminham de quatro pés. Outros cães passantes assoviam e estalam dedos para as pessoas. Essas, na falta de um rabinho pra balançar, rebolam feito cachorras de funk.

E mais: na TV, a última edição do “Gente Também é Parente” traz imagens de cachorros tosando pessoas, anunciando hotéis, restaurantes, dentistas e cemitérios para humanos. Numa mesa-redonda, cachorros especialistas discutem as relações entre cães e pessoas.

Ali, um cão cinopsicólogo defende que humanos seriam importantes para fazer companhia a filhotes cujos pais, ocupados, não possam lhes dar atenção. Idem quanto a cães da melhor idade. Já um representante de outra corrente canina sustenta que cachorros que exageram no conforto a humanos só o fazem porque pessoas são capazes de dar um tal amor incondicional, enquanto que as relações entre caninos exigem aceitação, respeito e um amor em que um constrói o outro. Muito trabalhoso.

Segundo Noinha, um debatedor da mesa-redonda é mais radical:

– Milhares de cães vivem em orfanatos, em asilos e nas ruas, enquanto cachorros das classes média e alta compram pessoas cujas raças nem existiam, originalmente. Tudo fruto de cruzamentos genéticos produzidos por cães pesquisadores capitalistas. Cachorros que vivem de vender pessoas cascateiam que são amigos de humanos, quando se sabe que amigo não compra nem vende amigo

Ainda de acordo com Noinha, outro especialista argumenta que há cães incapazes de amar outros cães. Assim, melhor do que ficar sozinhos seria mesmo criar humanos, ainda que em apartamentos, habitats artificiais e prejudiciais à saúde tantos de cães quanto de seus homens e mulheres de estimação. Além disso, acrescenta o mediador, em caso de cachorros reconhecidamente maus e desequilibrados, é melhor, mesmo, castrarem seres humanos e descarregarem neles sua piração do que fazê-lo com seus semelhantes. Um pecado menor, segundo a doutrina milenar de Dog God, o eterno.

Noinha acrescenta, irritada, que sempre acorda, nesse ponto, e fica sem saber o final do sonho. E quer que o amigo o interprete pra ela.

– Qual é, Noinha? – Desatinaldo corta rente. -Isso é assunto pra terapeutas. Além disso, conheço muitos cães que possuem pessoas de estimação. E eu lá ia fazer uma cachorrada, digo, uma pessoada dessas com eles?

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