Cai, cai, tanajura

Vêm o pai e o filho, de nove anos, de mãos dadas, caminhando pela calçada. Vêm do colégio do menino, ao fim de um dia de aulas.

E vêm se alegrando. O pai, por ter aquele e outros dois filhos, todos gente boa e amiga. E o menino comemora a alegria de ter pai. Quando andam juntos, é sempre em meio a risos e troças e rimas, entremeados, às vezes, por um ou outro ensinamento, uma correção necessária. E rolam musiquinhas com letras engraçadas que compõem em parceria e cantam a se pocar de rir.

Vêm felizes. O pai carrega a mochila do filho, pesadona. O menino acaba de sair do futsal, depois de cinco aulas. E está cansado. E o pai, cansado de umas tantas coisas da vida mas feliz com a própria vida, gosta de poder aliviar o peso da mochila do filho.

O menino conta dos gols feitos, dos perdidos, daquela que bateu na trave e saiu, de uma que o goleiro tirou com os olhos. Quando relata um gol bonito que conseguiu fazer, gosta de usar frases que aprendeu com o pai: “O goleiro não saiu nem na foto, Pai. Ela entrou lá onde a coruja dorme”.

Passam por duas praças. E muitas lojas. E faixas de pedestres. E vendedores ambulantes, com seus pregões. E de tudo tiram proveito. E riem, satisfeitos de seu amor de pai e de seu amor de filho. E o filho quase sempre tem uma piada nova, que aprendeu com os amigos. E o pai lembra pegadinhas, parlendas, trava-línguas, histórias de outros tempos mais calmos e de valores mais voltados para a solidariedade e para os tesouros verdadeiros da vida.

O pai usa o trajeto também para fazer o filho se acostumar com caminhadas, conforme ele mesmo, o pai, gosta de fazer, em manhãs de tempo firme, à beira-mar. Às vezes acelera um pouco o passo, a ver o desenvolvimento do filho. Depois, suavemente, desacelera, até um andamento mais favorável para seu moleque querido.

Naquela manhã, o sol tinha sido forte, por umas poucas horas, após dias chuvosos. E aquilo trouxe uma novidade para o menino, que nunca vira uma tanajura.

-Um formigão de asa, Pai.

Então o pai vai rebobinando a memória e contando ao filhote que as tanajuras, lá no interior, há muitos anos, eram motivo de festa, quando saíam. Diante da revoada dos insetos, a meninada gritava, correndo atrás das tanajuras em seu voo de acasalamento:

– Cai, cai, tanajura, na panela de gordura.

E os olhos do menino brilham de surpresa quando o pai conta que muita gente tirava a bundinha das tanajuras e fazia farofa. E que também se fincava um palitinho de fósforo ou espinho de laranjeira na bundinha delas e elas ficavam girando, feito ventilador. Ninguém achava aquilo cruel, porque eram outros tempos.

E o menino se espanta quando o pai diz que cada tanajura fêmea fura um buraco no chão e dali nasce um novo formigueiro, que a bundinha delas é um depósito de ovos.

E o menino conta, no caminho até em casa, 49 tanajuras mortas no asfalto. E naquele dia vai dormir com as impressões de um tempo que não é seu. Mas o pai é seu, para sempre. Por isso, depois da oração que sempre fazem juntos, o menino dorme tranqüilo, sorridente, talvez correndo, em sonho, atrás de tanajuras numa rua sem asfalto.

Jornalista, escritor. Mestre em Estudos Literários.

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