Olhos que acabaram de brincar

O reflexo de um olhar no brilho do espelho do outro olhar. Foi bem assim. Mas começou com uma quase raspinha de olhar. Depois uma sutil convergência quase imperceptível de olhar. De fazer pensar que iam se paralelizar para só no infinito um olhar tirar o outro pra dançar.

Teve caça, não. Nem caçador. Nem caçadora. Por isso não houve o ameaçar, nem o se assustar, nem o se irritar. Menos ainda o assediar. Precisou não de ninguém desviar o olhar. No começo parecia mesmo um desolhar, um quase-olhar.

Mas havia o frequentar. E o caminhar. E o trabalhar. Coisas de se fazer com o olhar. E primeiros planos. E segundos planos. E olhos de peixes. E grandes biológicas angulares. E slow, e quadro a quadro. E congelamentos de quadros nas memórias das pastas dos arquivos mentais. E percepções e sagacidades. E um dia o frontal olhar. E tudo que havia lá.

E num iridiscente olhar guardou-se a foto de outro irradiante olhar. E de noite, em casa, já na vertical, antes de colocar os olhos na caixa para o devido repousar, dois corações acessaram seus arquivos visuais do dia e se surpreenderam ao ali nem um mínimo resíduo de medo encontrar.

E aí o medo começou a vicejar em cada olhar.

E nos dias seguintes, e nos meses seguintes, os olhares se encontram nas esquinas, nos escritórios, nos teatros, nos cinemas, nas salas de concertos. Ainda enviesados, na maioria das vezes. Mesmo durante conversas, porque tantos olhares já não permitiam bocas cegas.

E palavras viram e viraram olhares. E silêncios fizeram discursos. E gestuais gritaram coisas que só ouvidos de ouvir podem ver. E olfatos perceberam sons melódicos como sonatas de Haydn ou sinfonias de Bach. Emitidas por olhares encantados. Um flautista de Hamelin entretecia bordados em semicolcheias de ouro e pedrarias. Enfeitava as meninas dos olhos e os olhos da menina poeta que havia no coração da mulher dona de um par de olhos solteiros a caminho de um encontro com um sereno e querido outro solteiro olhar, querendo se acasalar.

E então, no olhar do coração dela, era como se faltasse o ar, em meio a tanta rima em ar e em tanto olhar. E duas contas brilhantes, feito dois enfeitiçados olhos de se revirar, rolaram pelo arquejante vale de um colo cercado de montanhas onde um par de picos arrepiados intumescia-se para espiar.

E no coração dos outros dois olhos brilhou uma estrela, e cada íris fez um úmido verso pra ela, e o escondido sorriso aflorou primaveril, corajoso, nos olhos de ambos. Nascia um lugar invisível, onde o Amor é rei e rainha e nada sabe de tempo e de lugares e coisas.

Só é dono de si e de poesia.

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