Memórias de porto e de mar

Sabiá passa pelo buraco da fechadura. Ganha o mundo. É um sonho sonhado dormindo. De manhã, menino ensina na escola, na hora do recreio: sabiá é um canto mágico vestido de pena. Fininho assim. Se cismar, passa até em buraco de agulha.

Domingo de tarde, menino vai com o pai ao zoológico. Tem muita gente espiando a onça pintada. Tirando fotos. Contando mentiras de caçador. A onça se aporrinha, solta um esturro. A terra treme. Menino treme junto. Aprende: onça pintada é um rugido tremendo que mora escondido entre bigodes, dentes e pintas. E não gosta de história que não tem dia da caça.

Também tem manhã bonita. Sonho sonhado acordado. Na beira do rio. O Sol ainda se espreguiçando. O olhar alumia morno. Lambari chega feliz na flor d’água. Vê o claro do Sol. Salta um palmo acima do rio. Menino vê o Sol nas escamas molhadas do peixe, o espectro multicor. Não conta pra ninguém: peixe é um cristal que tem fosfato dentro e que a gente come pra ter boa memória quando crescer (essa parte é a mãe quem fala, na hora do almoço).

Menino mora em corpo de pré-adolescente. Caminha pra casa, na volta da escola. Soninha também. Calha de andarem juntos por infinitas três quadras e uma praça. Conversa miúda, toda hormônios. Rubores e gaguejos. Menino escreve numa folha de caderno, de noite: coração deve de ser um poeta que mora no peito da gente e bate asa querendo cantar feito um galo quando a gente vê os olhos de Soninha. Guarda o papel. Bem dobradinho. No fundo da lata de estilingue, bola de gude e pião. Enterra no jardim.

Menino muda pra corpo de adulto. Conhece mulheres. Encantos. Desfruta de noites de gemidos pares, madrugadas de ganidos ímpares. Parcerias geniais. De fazer amor fazendo declaração de amor. De se perder nos olhos da amada. Faz poeminha apaixonado: no trança-trança/de pernas e gritos/me deslimito/vago num fora de eu/me acho num descomum/me encontro no dentro seu/te aperto que estamos/me abraça que vamos/porque agora eu somos/você todinha amamos/en la ventana la luna/corisco varre a coluna/o enquanto de um grito plana/milênio em que o nós é um.

Menino de porto e de mar. Danado de andejo – já reside em corpo de sessentão. Amansa. Aprende que existe um tal de o outro – irmão. Também dito o semelhante, o próximo. E faz amizade com livros. Com a boa música. Com o silêncio. Com pessoas serenas e com as que buscam a serenidade. E tem filhotes doces que só favos de mel. Sorri: a maior riqueza da vida é ela mesma.

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