Tempo de banana comer macaco

“O tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que o tempo tem tanto tempo que só mesmo o próprio tempo sabe quanto tempo tem”.

Houve um tempo em que crianças se divertiam com parlendas como essa aí de cima. Foi lembrando esses tempos de mais serenidade que escrevi, num samba (“Na varanda do compadre”) que fiz em parceria com o mestre capixaba Francisco Velasco: “Relógio faz corpo mole/vendo o dia espreguiçar”.

Um amigo tenta me explicar Einstein e sua Teoria da Relatividade: “Qual é o tempo maior, um dia inteiro com a pessoa amada ou um minuto com o dedo numa chapa quente?” E mais: “Você está na plataforma de uma estação, esperando o trem. Ali é o presente. O trem ainda é o futuro. Ele chega ao presente, os passageiros embarcam. Quando ele some na primeira curva depois da estação, aí é o passado”.

O amigo prossegue: “Imagine-se colocado acima do pico de uma montanha de formato cônico. Lá embaixo, um trem circula a base do monte. Você será capaz de acompanhar visualmente todo o percurso do trem. Nesse caso, passado, presente e futuro tornam-se uma única coisa”.

Que ninguém tome isso como exato. É apenas a forma como entendi. E me vêm à memória os versos de Reginaldo Bessa: “O tempo não para no porto/ não apita na curva/não espera ninguém” (“O tempo”). Ainda bem que não me lembrei de que os gregos têm duas palavras pra definir o tempo: Chronos, o tempo do relógio, e Kairós, o tempo de Deus, a Eternidade. Ia complicar mais ainda.

Melhor recordar Machado de Assis: “O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto” (“Memórias Póstumas de Brás Cubas”). Ou Gilberto Gil: “Tempo rei/ó tempo rei/ó tempo rei/transformai as velhas formas do viver” (“Tempo Rei”).

Correria geral. O amigo está do seu lado e apenas diz, na despedida: “Um abraço”. Não abraça. Apenas diz. Megaespeculadores quebram países com um enter no teclado. E tem “O amor malfeito e depressa, fazer a barba e partir” (“Deus lhe pague”), conforme verseja Chico Buarque.

Sentado num barranco do Rio Doce, o velho ribeirinho Bastchão Bedurri matuta: “É tempo de banana comer macaco”.

Mas é o nosso tempo. E ainda existem primaveras. E crianças pelas praças. E uma teimosa esperança que ignora o tempo e insiste em ser a penúltima a morrer – antes da sogra, é claro.

“Há tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou”(Eclesiastes, 3:2b),

E que o Amor, que saiu de viagem, logo volte, calmamente, pra cá.

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