Bão é nós

Se achava no mínimo o máximo. Com direito a dar pitaco em tudo que é conversa. De se insinuar para qualquer mulher que lhe agradasse. E de começar frases com pronomes oblíquos em textos para jornal.

Nada casual. Cedo trombou com a impressão de ter vindo ao mundo em missão pra lá de especial que ele próprio, contudo, não atinava bem qual seria. Até aonde chegara com suas mais antigas pesquisas no frame da memória, era algo meio difuso mas tinha a ver com acabar com toda forma de caretice, de breguice, de cafonice. Sentia falta de nomes mais pós-modernos para espinafrar. Tipo retrô.

-Quequeísso, maluco? – o amigo pontuou. -Todo mundo tem a impressão de ter vindo ao mundo em missão especial. Alegorias da mente para lidar com o pavor da morte, a certeza da limitação, da finitude, da incapacidade de compreender o tempo e de passar por ele batido, vazado, dar tipo um ninja.

Naquele dia, ouviu palavras revólveres, palavras navalhas, mesmo palavras punhais. Delírio, egolatria, por aí. Chegou a pensar em egolataria, por associação. Seria uma espécie de lataria do ego.

Quis não. Já não tem, o ego, suficientes vestimentas?, foi capaz de refletir. Que mais são então a auto-estima desregulada, a inveja dourada, o ciúme sutilizado, o orgulho lustrado? Arquivou a idéia.

Fosse o que fosse, remanescia nele a certeza da existência da indefinida missão.

-Missão é u´a missa grande, seu otário – é nisso que dá ter amigo troca-trilho.

A verdade é que nenhuma dessas considerações resolvia sua paradinha. Buscava mesmo era o afloramento daquela característica exacerbada que faz o sujeito brilhar sem fazer força. Sua especialidade, sua excelência, agora chamada expertise pela macaquice pindorâmica, sim, cadê?

Deu de freqüentar círculos, festas às quais tinha acesso por intermédio de amigos que preferiam se livrar de sua forte pressão fornecendo-lhe convites. Às vezes ia de penetra. Virou papagaio-de-pirata, arroz-de-festa, carne-de-vaca.

Passava já dos 40. Detestava a vidinha fosca e miúda. Culpava-se, culpava a família, o governo, a sociedade, a mídia, os amigos que não o apoiavam.

Trabalhava mal. A saúde acompanhava o balanço, feito o carpinteiro mamado: duas no prego, uma no dedo, duas…

-Egão.

Essa doeu. O filme acelerou. Fotogramas em parafuso. Ladeira abaixo, medo adentro.

Por entre receitas e consultas, drogas de traficantes e de médicos, lembra-se vagamente, olhos baços e sorrisos lerdos, do dia em que copiou da fachada de um boteco de periferia a frase que adotou como lema. Mandou imprimir em 77 camisetas brancas. Na foto do prontuário, aparece vestido com uma, desbotadona já.

-Bão é Nós, hora do remedinho.

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