Conto de se contar já

Em Pedro Tracajá, verdade se diga, pouco há, da tartaruga amazônica, o famoso quelônio dulcícola, um que, registrado está, vive em água doce, com seu casco negro-azulado e manchas amarelas distribuídas pela cabeça. Manchas que, em vivendo ele um e crescendo, sobrevivência havendo e sopa de ribeirinho não virando, pouco a pouco perderá.

Tampouco tem, Pedro Tracajá, diferentemente do quelônio cujo nome herdou, os apenas entre 45 a 50 centímetros, em média, da cabeça ao fim do casco, que, sozinho, mede 35 cm, em média.

Nada. Pedro é caboclo criado no oco do mundo, nas veredas e caminhos de Nosso Senhor, que muitos há, um só sendo, porém, no final de todo andar, nadar, vegetar, rastejar e voar, que escrito está, voe-se pra onde se voejar, para ali ou acolá.

Pedro Tracajá vive o que de se viver muito há, com minúcias e riquezas e esbaldâncias, livre como o ar.

E um dia conhece Acilema, de casco ainda frágil mas de sonhos abusados e sabenças iniciantes.

E Acilema tem partes traseiras de grande valor e pernas fortes e todas feitas em dureza e altivez. E, assim dotada, acha que a si e a tudo basta para bem com tudo estar e, desejando, dominar. Então, pelo muito vagamundear, um dia dá com Pedro Tracajá na volta grande do oco do mundo.

E não tem ainda, Acilema aquela, maturidades íntimas nas partes, aquela alegria inteira de até bambear as pernas nos depois, que seus sentires moram ainda nas entradas, que é novinha a sua pouca idade. Já ensaiou mergulhos, mas o de dentrão mesmo ainda mora invisitado por macho de talento, a força da fêmea ainda sem migrar da casca para o lenho, para o cerne de si, no fundão, em meio ao desesperar-se de unhas e dentes e gritos e tudos.

Acilema toureia a vida, pensa poder negociar com as essências, tangencia a existência e gosta de pequenos tracajazinhos ainda necessitados de mãe. E encaixa-se no papel de mãe deles. E fala coisas, umas bonitas outras nem tanto, havendo até mesmo umas das bem boas.

E Acilema teme Pedro Tracajá com a mesma intensidade com que o seu mais definitivo de dentro chama por ele.

E todo o visgo, a gosma, o salgado de fêmea quer mas teme o casco arranhado e flechado e arpoado e duro de tantas cicatrizes de Pedro Tracajá, que de margens e de redemoinhos e de saltos e quedas e bancos de areia e de mistérios e de encantos sabe contar e fazer sentir.

Porque na comunidade de Acilema muitas luas se passaram produzindo fôrmas e modelos que para Acilema fácil de quebrar e desconstruir não são não, respeite-se a dificuldade velha na incipiente amante, sombras derramando-se pelas entranhas como em parede de ancestral caverna mítica.

E Acilema bem que, lá num inconfesso cantinho sombroso do pensamento, pensa gemer, geme sonhares, delira subverter, pensa largar-se no precipício do novo e do agora sim. Mas só de repouso, em vigília não. Medão.

Acilema segue pensando, sem sentir. E aprendeu, com outras acilemas infelizes, que vantagem em tudo procurando-se há, é só persistir. E em seu jeito obsessivo, negocia vantagens num estar perto de Pedro Tracajá. Acordada, nada ainda sabe do se dar, nem para que serviria saltar no abismo, onde o pânico há, abraçada ao peito forte e viajado de Pedro Tracajá.

E Pedro Tracajá, em quem de sentires e perceberes tanto há, finge de morto, sem mostrar querer se dar nem tampouco refugar.

Tracajás existem em muitas bacias hidrográficas da América do Sul. Alimentam-se de folhagens flutuantes e submersas, de invertebrados, de frutos caídos na água, e, ocasionalmente, de peixes. Têm vida solitária e sedentária.

E acilemas abundam em de leitos de rios, estreitos e igarapés, com seus reflexos, corredeiras, redemoinhos, remansos e cachoeiras. Encantam-se com novidades da superfície, com bonitezas rodopiantes que o cantar do rio apresenta diferentes, todo dia e toda hora, com peixinhos que saltam por entre cores, graças e garças, com iaras e botos e coivaras. Curiosas. A umas a roda do tempo vai curar, outras na ilusão dos dias vão murchar.

Assim, sem final feliz, se faz a história de Acilema e Pedro Tracajá.

Para ambos, aprender e destemer ainda há muito pra.

Mas, diga-me lá, pra quem não haverá?

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