Cantor dos encarcerados e empilhados

Na esquina da minha rua, a uns 30 metros do portão da minha gaiola, à esquerda, em oblíqua, de rés-do-chão a rés-do-chão, e a mais uns 12 metros, em diagonal ascendente, concreto acima, se considerada a distância entre o térreo e o terceiro andar do caixote próximo, situa-se a gaiola de mais um encarcerado feito eu.

À direita e à esquerda, e também em frente, jaz a vida de outros tantos encarcerados. Alguns tantos, dentre esses dos quais um sou, consideram-se bem-sucedidos na vida. E até fazem alguma pose, por conta disso. Vejo-os de vislumbre, às vezes, quando, por entre estancos, rangidos, silvos, sirenes ou avisos luminosos, as portas-pontes levadiças de seus fossos, feito castelos neomedievais, deixam-me entrevê-los, quando saem de suas gaiolas ou a elas retornam, dependendo do horário em que esta minha observação se dê, eu também saindo ou retornando à minha gaiola, conforme igualmente se dê o momento da observação. De muitos deles apenas adivinho os perfis, que os vidros dos carros, consoante os do meu, não querem mostrar mais que silhuetas difusas e, não raro, mal-humoradas, em sua pressa de porquê nenhum, de verdade.

Igualmente comungamos todos o desdireito de pisar no chão, o que nos tira o contato com a Mãe Terra e com a renovação energética que esse contato fundamental à saúde nos propiciaria. Todos sabemos a que horas o vizinho faz cocô, das cinco da manhã em diante, por conta das descargas dos sanitários (que os nossos irmãos portugueses, muitos igualmente engaiolados, chamam de autoclismas), e identificamos o constrangimento da gaiola acima, ao lado e abaixo, no chora-baixinho do amor constrangido e amordaçado dos engaiolados e das engaioladas, televisões ligadas; crianças tantas reprimidas a sussurros contundentes, a resmungos e a tapas, de modo a dosarem seu desconforto frente ao medo, ao frio, ao pesadelo, à doença e ao qualquer negócio. Somos encarcerados civilizados, signifique lá isto a moléstia que possa significar.

Mas, se assim é, o que é que tem de tão especial o fato de que, como digo lá em cima, na abertura de mais este papo amigo, “na esquina da minha rua, a uns 30 metros do portão da minha gaiola, à esquerda, em oblíqua, de rés-do-chão a rés-do-chão, e a mais uns 12 metros, em diagonal ascendente, concreto acima, se considerada a distância entre o térreo e o terceiro andar do caixote próximo, situa-se a gaiola de um encarcerado feito eu.”?

É que na esquina da minha rua, a uns 30 metros do portão da minha gaiola, à esquerda, em oblíqua, de rés-do-chão a rés-do-chão, e a mais uns 12 metros, em diagonal ascendente, concreto acima, se considerada a distância entre o térreo e o terceiro andar do caixote próximo, gorjeia com todas as suas forças um canarinho engaiolado.

É um animal dito exótico, porque não pertence à fauna brasileira. Um canário belga, portanto liberado pela lei para tornar-se nosso irmão, encarcerado feito nós. Eu sei, tudo bem: é animal descendente de centenas ou milhares de gerações de pássaros criados em cativeiro; não sabe procurar alimento; não é capaz de defender-se de predadores; não tem anticorpos como os pássaros que ainda vivem em liberdade. Então, agora que estamos na primavera, aqui no lado Sul do bolão grandão, a avezinha cantora esgoela-se o dia inteiro, conforme a programou a Natureza, em busca de uma fêmea que não virá. E nos alegra o coração, os corações, esses corações que se esgoelam o dia inteiro em busca de um respirar que também não virá, porque nossa primavera se foi, no dia mesmo em eu deixamos de pisar no chão, de pôr cadeiras na calçada, de ouvir e sentir a dor e a felicidade do vizinho, no dia em que passamos a murmurar bom-dia, entredentes, aos nossos irmãos, no constrangido silêncio dos elevadores.

Por isso, o canarinho belga que canta maravilhosamente bem, na minha rua, a uns 30 metros do portão da minha gaiola, à esquerda, em oblíqua, de rés-do-chão a rés-do-chão, e a mais uns 12 metros, em diagonal ascendente, concreto acima, se considerada a distância entre o térreo e o terceiro andar do caixote próximo, encantando toda aquela parte da quadra (que é o nome que agora damos à vizinhança), toca meu coração, e, com perdão da pobreza da rima, poderia, na falta de melhor nome, chamar-se agora simplesmente esperança.

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