Automove é home ou é muié?

Diferentemente da Natureza, onde tudo é processual e um estágio sempre gesta outro, nas sociedades humanas muitas vezes as coisas vão de supetão. E às vezes de sapatão, também, caso dos palhaços de circo e das pessoas que têm calos de estimação.

Do Brasil dos anos 50, quando nasci, até os nossos dias, algumas coisas seguiram as leis naturais e outras nos vieram através de saltos e de rupturas. E o brasileiro, essencialmente um matuto, letrado ou não, vem, de susto em susto, recebendo e percebendo as mudanças.

Naqueles tempos do pós-guerra, mais da metade da população do Brasil ainda vivia no campo. Uma tímida classe média tentava vir à luz. A geladeira, o supermercado, a tv e o fusca pontificavam entre os novos ícones de um tempo de sonho e de esperanças renovadas depois do conflito armado que terminou em 45. E o matuto lá, se assustando e pouco a pouco se desmatutando, meio que na marra.

Como tudo é cíclico, logo vieram também a Guerra do Vitenã e uma onda de ferozes ditaduras bancadas pelos Estados Unidos na América Latina, Brasil incluído. Importamos a contracultura, criamos a bossa-nova e copiamos modelos para produzir a Jovem Guarda. O velho matuto viu o hippie, viu Roberto Carlos, viu João Gilberto, viu a tortura, viu a morte, viu a tv a cores chegar e depois virar tv em cores, viu a mulher brasileira encantar o mundo. Vovô viu a uva.

Vieram depois as Diretas-já, a dita redemocratização, a ditadura militar substituída pela ditadura econômica, o consenso de Washington, a globalização, o PT chegou ao poder e conseguiu a proeza de desmoralizar o escândalo – agora desglamourizado e rotinizado por edições semanais.

O matuto brasileiro se espreme na periferia das cidades médias e grandes. Tem filho sem escola, sem emprego, desdentado. Teve filho assaltante, preso, assassinado, avião, filha prostituída. Tem tv pirateada, boca de fumo na esquina, se borra de medo da polícia. Perdeu o samba, ganhou o hip-hop. Mas não perde seu jeito único, seu humor, seu ritmo, as sonoridades especiais de sua variada fala. É um viciado, dependente de esperança e fé.

O que resta do matuto brasileiro recusa-se a morrer, porque com ele morreria o Brasil. Restaria um tosco simulacro de Estados Unidos – uma norte-américa baixinha, barrigudinha, desdentada, emperequetada, lipoaspirada, boiada aboiada pelas grandes redes de tevê e por seitas cheques, esses arautos da sinistrose que brotam do caos e a ele devem sua vida, dele retiram sua seiva e seu capital.

Se você ainda tem dúvida sobre quem é o matuto brasileiro, aqui vão três passagens dele que considero emblemáticas, pra que não restem dúvidas.

1) Final dos anos 50. Meus primos mudam-se da roça para a cidadezinha. Eu e minha irmã vamos levá-los até a pracinha. Jamais viram uma praça. Não conhecem transporte ferroviário, só caminhão, jipe, carroça, carro de boi, charrete e animal de sela.

Chegamos à pracinha. A 200 metros, passa a linha férrea. Logo escutamos o apito da maria-fumaça. O trem vai passando lá longe, vem de Vitória. Um primo se assusta, agarra-se ao braço da irmã mais velha:

-Se ele vier pra cá nós corre.

2) O Brasil sofre com a falta de estradas, de transporte coletivo, de infra-estrutrua de um modo geral (perguntará o leitor mais novo, neomatuto: “Já, naquela época?”). Então, cronistas de sua gente e de seu tempo, Humberto Teixeira escreve e Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, musica e canta (“Estrada do Canindé”): “(…)Automove lá nem se sabe/se é home ou se é muié/Quem é rico anda em burrico/Quem é pobre anda a pé(…)”.

3) Década de 60. Foco de guerrilha no Caparaó, na divisa entre Minas e Espírito Santo. O jornalista e escritor capixaba Rogério Medeiros (autor da importante Lei Rubem Braga, da Prefeitura de Vitória, que gerou expressivo apoio à produção cultural na capital do Espírito Santo) sobe a Serra da Mantiqueira, circula entre povoados sem luz elétrica, sem calçamento, sem água tratada. Terra de legítimos matutos. Durante mais de um mês, entrevista guerrilheiros, militares, moradores. O material é publicado por A Tribuna, no Espírito Santo, e pelo Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro.

Um dia, em meio a uma operação militar acompanhada pelo repórter, por entre montes e vales, um helicóptero se aproxima da vila de Santa Marta, um lugarejo espremido entre montanhas. O pavor é total. O povo corre, em pânico. Idosos são pisoteados, crianças berram pelos pais, mulheres gritam pelos filhos.

Em meio àquela guernica brasileira, um menino aponta para o helicóptero que paira sobre a vila, procurando lugar de pouso. Desesperado como todos, olhos enormes, ainda consegue perguntar ao avô:

-Vô, que aquilo?

-Sei não, fio. Mas só pode tar procurano lugar pra dá cria. Bitelão desse jeito, deve de parir de três a quatro fiote.

Bendito matuto. Enquanto existires, existiremos, nação.

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