Alô galera da primeira pedra

Naquela manhã, Bete e Vaguinho estão um tanto tensos, no aeroporto. Por diferentes razões.

A visita esperada pra passar aquele final de semana prolongado mexe bastante com o casal. Júlia é amiga de Bete, da época da faculdade. Não se vêem faz 10 anos.

Bete tem saudade. Vaguinho, expectativa. Muita expectativa.

Tá na cara que não vai dar certo. Como é que uma mulher fica falando prum marido safado daquele, durante anos, que sua melhor amiga tinha sido o grande símbolo sexual da turma, no tempo de estudante, e que tinha apelido de Julinha Rangão?

A fantasia de Vaguinho anda a mil. Sonha, dormindo e acordado. Já tomou dois uísques duplos, às 11 da manhã.

Chega o avião. Lá vem Julinha R…, digo, Júlia. Bete molha os olhos de felicidade. Vaguinho se contorce, por dentro.

Passam no bar preferido, antes de seguir pra casa. Chopinhos, petiscos. As duas falam, sem parar. Vaguinho bebe, idem. E a fantasia vai crescendo, se agigantando. Julinha Rangão, digo, Júlia, quer dizer, Doutora Júlia, é muito mais do que o esperado (pensa que narrador é de ferro, leitora ingrata?).

Bete pede licença. Vai ao toalete. Ficam os dois na mesa. A frase pula da boca de Vaguinho feito um boneco de mola:

-De noite eu vou lá no seu quarto.

-Tá doido, cara?

-Vou. Não tem jeito. Eu vou.

-Se você continuar com isso, eu vou contar pra Bete.

-De noite eu vou lá no seu quarto. Vou. Não tem jeito.

Seguem pra casa. Almoço, piscina, cerveja. Vaguinho pensa que vai estourar, a pressão sobe.

Não programam saída noturna. As amigas querem conversar muito, lembrar histórias, muitas histórias.

É o dia da pelada semanal de Vaguinho, no clube. Liga de lá, avisa que vai chegar mais tarde, depois das 11, quer deixar as amigas mais à vontade pra conversar.

Chega à 1 da manhã. Dez uísques no telhado. Tomou banho no clube. Entra. Vai direto ao quarto de hóspedes.

A porta não está trancada. Julinha safadinha, fez jogo duro mas gostou da idéia da aventura.

Entra, sorrateiro, pé ante pé. Tudo escuro. Vai tirando a roupa o mais devagar que consegue. Pula sobre a mulher, decidido, tampa-lhe a boca. Beijos, reação, dificuldade, gemidos abafados que vão pouco a pouco se transformando em suspiros. Aquele perfume que sentira no aeroporto.

Pouco a pouco, a mulher vai cedendo, a animação cresce, começa a festa.

Mas o que é isso?, algo não vai bem, alguma coisa não faz sentido.

A mão direita da mulher afrouxa o abraço, procura o interruptor. O quarto se ilumina. É Bete, debaixo dele, enganchada nele. Trocaram de quarto, depois que Júlia, amiga fiel, entregou o assédio de Vaguinho.

-Canalha. Canalha. Canalha.

O susto dura só uns poucos segundos. Vaguinho, vagabundo velho de estrada, logo faz cara de safado:

-Bate nessa cara sem-vergonha que te ama, meu amor. Bate, bate. Eu mereço. Mas eu sabia que só podia ser você. Não pode haver no mundo mulher tão gostosa quanto a minha pretinha querida.

Amigos do casal garantem que Bete não conseguiu manter a raiva e que inclusive aproveitaram que já tava e deixaram, com final feliz e tudo.

Vivem bem até hoje. Já Julinha Rangão nunca mais pintou no pedaço, pra tristeza de Vaguinho e do narrador.

Cada casal se resolve como pode.

A turma da primeira pedra que fique à vontade.

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