A efêmera glória de Antônio

As conversas na cidade andavam quentes, naqueles dias frios de julho, e giravam em torno de um só assunto. Aliás, já fazia quase um mês. Desde que o Parque de Diversões Maracanã chegara por lá para cumprir sua temporada anual na cidade.

O parque era armado perto da estação velha, uma enorme construção desativada depois que um novo traçado levara os trilhos da ferrovia mais para diante. E num raio de cinqüenta metros ficavam alguns dos pontos mais movimentados do comércio local. Armazéns, açougues, bares, sinuca, hotel e restaurante. Além da nova estação, para onde convergiam diariamente, quatro vezes, boa parte dos habitantes, fosse para viajar, para levar ou esperar alguém, ou ainda simplesmente pela curiosidade de observar o movimento e, no caso de muitos, ter novidades para contar no resto do dia. E, naqueles dias, o assunto era um só.

Desde que o Parque estreara, com suas “músicas e atrações variadas”, “melodias que alguém oferece a alguém e esse alguém sabe quem”, um personagem ainda incógnito mexia com a fantasia da cidade e tornara-se motivo de piadas, de apostas, de mistério e risadas. Não havia uma só noite em que a maioria absoluta das músicas tocadas pelo serviço de alto-falantes do Parque de Diversões Maracanã não fosse dedicada a um misterioso O.X.

“A canção que ouviremos a seguir é dedicada pela linda morena de blusa vermelha e saia branca a O.X., com amor e carinho”. “A canção apaixonada que tocaremos agora vai especialmente para O.X., de parte de La Violetera, sua grande admiradora”. E por aí, numa enorme seqüência musical que quase matava os homens de ciúme e a todos de curiosidade.

Na escola, na zona, na igreja, no campo de futebol, O.X. já era mais importante do que o prefeito, do que o padre, do que Ritinha Bunda de Frango, a mulher mais cortejada da Rua do Cavaco, do que as moças mais bonitas e desejadas da cidade. No cartório local, estudantes faziam pesquisas a pedido de professoras, buscando possíveis moradores com as famosas iniciais. Nada. Ninguém atinava.

Até que o Parque de Diversões Maracanã começou a anunciar que no último dia de função na cidade, um sábado, o nome do felizardo que se escondia por detrás das letras O.X., descoberto “num esforço de reportagem do nosso estúdio”, seria afinal revelado. Durante uma semana, de meia em meia hora o locutor repetia a chamada, instigando o povo. No sábado, que nunca tinha demorado tanto a chegar, não cabia mais ninguém no local.

Dez da noite, o povo já pocando de curiosidade, o manhoso locutor finalmente entrega o ouro: “O.X. não é um fazendeiro, nem um empresário, nem um político, nem mesmo um conhecido estudante desta nossa querida e hospitaleira cidade”.

Pausa. O público de respiração presa. Olhares consultam-se, pura ansiedade. Depois de mais uma pausa dramaticamente calculada, o locutor finalmente acaba com o mistério:

– O.X., meus amigos, é o Ontõim Xofer!

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