A filha do medo

agressao A filha do medoA feira livre do bairro das Perdizes, em São Paulo, é um mundo à parte. A exemplo de outras tantas feiras espalhadas pelo Brasil afora. A divertida música dos pregões dos feirantes, aqueles tantos cheiros, a enorme variedade de produtos, o colorido dos hortifrutigranjeiros, os toldos das barracas, a arte da pechincha, tudo remete a um clima de calma e de gentileza. Um bom lugar de se freqüentar. O que não impede, é claro, que às vezes algum desentendimento possa quebrar momentaneamente aquele sossego.

Pois naquele dia um ajuntamento chamava a atenção. No centro da roda, um homem insultava outro, aos berros:

– Você é safado, rapaz. Safado. Por muito menos do que isso eu já bati em muita gente. Anda, fala alguma coisa. Diz que eu sou santo, que sou bonito, pra eu quebrar a sua cara.

A tranqüilidade do insultado chamava a atenção. Muitos dos espectadores estavam mais  amedrontados do que ele, que finalmente falou, em tom firme e pausado:

– Meu amigo, se o senhor repetir todas essas coisas pra mim num outro dia, quando eu esteja com medo do senhor, certamente nós vamos brigar. Mas hoje, não. Hoje eu não estou com medo. Então, desista. O senhor não vai conseguir brigar comigo.

O outro ainda gaguejou alguns impropérios. A turma do deixa-disso, aproveitando-se de sua hesitação,  entrou no meio, e logo o ajuntamento estava dispersado.

Era um tempo em que eu gostava bastante duma briguinha, e várias vezes voltei a ver, na mesma feira, o rapaz que demonstrara aquela impressionante serenidade. Tempos depois, descobri que se tratava do marceneiro da minha rua. E um dia ficamos amigos. Anos depois, lembrei-lhe o ocorrido na feira, naquela manhã, e lhe disse do quanto suas palavras me haviam intrigado. E o amigo, embora mais jovem que eu, falou-me com a autoridade de um pai:

– É simples. Toda agressão, seja ela física, verbal ou gestual, é filha do medo. É impossível a gente agredir algo ou alguém a quem não se tema. Ressalvem-se, é claro, os casos de legítima defesa, onde o que está em jogo é o nosso dever de zelar pela própria vida ou pela de alguém que não possa se defender. No mais, sempre haverá um medo. Cabe a nós trabalhar para conhecê-lo. Pode ser o medo do quarto escuro, ou do abandono, ou da solidão, ou de não ser amado, ou de perder o limite, ou de parecer ridículo, de não ser aceito, de não ser suficientemente homem, de não ser competente o suficiente para fazer feliz a uma mulher. Podem ser muitas coisas, e todas são apenas objetos do medo. A verdade é que o medo é o nosso companheiro mais antigo aqui na Terra, um sentimento que veio nos receber no leito em que nossa mãe nos deu à luz. Toda pessoa saudável tem medo. Uns tendem a fugir dele, desesperados, enquanto outros lançam-se de encontro ao que os apavora. O que faz a diferença entre os chamados covardes e heróis é apenas a maneira como cada um lida com seu medo.

E, percebendo as reflexões que aquelas palavras me causavam, meu importante amigo acrescentou, com um sorriso tranqüilizador:

– Coragem, amigo. Nenhum de nós está sozinho, nem no medo nem na vida.     

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